Composição 1_1
Composição 1_1

Luiz Felipe de Oliveira Lima

 

“Todos nós podemos nos prontificar a acolher, tentar ouvir, tentar nos colocar no lugar desta pessoa para tentar entender o que ela está sentindo, sem julgamentos”

 

Setembro Amarelo é o mês (de 1 a 30 de setembro) dedicado à prevenção do suicídio. Trata-se de uma campanha que visa conscientizar as pessoas sobre o suicídio, bem como evitar o seu acontecimento. Hoje (10) é oficialmente o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Para falar sobre esse assunto, o Candeia entrevista nesta edição o médico psiquiatra Luiz Felipe de Oliveira Lima, 38 anos. Ele fala dos principais fatores que podem levar alguém a tirar a própria vida e ressalta que cabe a todos oferecer ajuda a quem passa por problemas. Luiz Felipe é natural de Marília e atua na área de Saúde Mental. Formou-se em Medicina pela Universidade do Oeste Paulista, tendo cursado a residência em Psiquiatria pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. Já foi médico psiquiatra do CAPS de Bariri e, atualmente, atende na rede pública de Itapuí e Boraceia e em consultório particular em Bariri.

 

Candeia – Qual a importância da campanha Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio?

Luiz Felipe – O Setembro Amarelo começou nos EUA, quando o jovem Mike Emme, de 17 anos, cometeu suicídio, em 1994. Mike tinha um automóvel Mustang 68 amarelo e era muito conhecido por ajudar as pessoas com seu carro. Seus pais e amigos não perceberam que o jovem tinha sérios problemas psicológicos e não conseguiram evitar sua morte. No dia do velório, foi feita uma cesta com muitos cartões decorados com fitas amarelas. Dentro deles tinham mensagens como “Se você precisar, peça ajuda”. A iniciativa foi o estopim para um movimento importante de prevenção ao suicídio, pois os cartões foram distribuídos e chegaram realmente às mãos de pessoas que precisavam de apoio. Em conseqüência dessa triste história, foi escolhido como símbolo da luta contra o suicídio o laço amarelo. O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio e, no Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria junto ao Conselho Federal de Medicina criaram o Setembro Amarelo em 2014. O suicídio é um importante problema de saúde pública, com impactos na sociedade como um todo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), todos os anos mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que de HIV, malária ou câncer de mama. Em 2022, o lema é “A vida é a melhor escolha!” É importante falar sobre o assunto e quebrar os tabus para que as pessoas que estejam passando por momentos difíceis e de crise busquem ajuda e entendam que a vida sempre vai ser a melhor escolha.

 

Candeia – As pessoas que falam em suicídio só o fazem para chamar a atenção e não pretendem, de fato, terminar com suas vidas?

Luiz Felipe – Pensar assim é um grande erro. Todo paciente que fala sobre suicídio tem risco em potencial e merece investigação e atenção especiais. Quando uma pessoa fala sobre suicídio, este pensamento realmente passou ou ainda tem passado por sua cabeça. Muitos daqueles que poderiam ajudar, por vezes comentam, inclusive com seus próprios familiares, que problemas mentais são “frescura”, piorando ainda mais a sensação de solidão e desamparo. Realmente, muitas pessoas que pensam em suicídio não pretendem tirar sua própria vida, mas é importante investigar o que está levando a este tipo de pensamento. Por impulsividade ou por erro de cálculo da tentativa, a fatalidade acontece. Por isso, é fundamental a escuta e o bom julgamento clínico. Todos nós podemos simplesmente chegar para a pessoa e perguntar: “Você está bem? Posso te ajudar em algo? Você pode contar comigo”.

 

Candeia – Quais são os principais fatores de risco para o suicídio?

Luiz Felipe – Ainda não é possível prever quem irá se suicidar ou não, mas alguns fatores podem identificar aqueles que têm maior risco. Os fatores de risco são diversos, mas sabemos que quase todos os casos de suicídio tinham uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada ou não tratada adequadamente. Desta forma, os dois principais fatores risco são doenças mentais e tentativas prévias de suicídio. Pessoas que tem transtornos como depressão, transtorno bipolar, transtornos de personalidade (em especial o transtorno de personalidade Borderline), esquizofrenia, pessoas muito impulsivas ou que são dependentes de álcool e outras drogas estão relacionadas com maior risco de cometer suicídio. Além disso, pessoas que já tentaram o suicídio e não estão adequadamente tratadas correspondem a aproximadamente 50% de todos os casos. No sexo masculino, a ideia de que o homem precisa ser forte e suportar de tudo muitas vezes impede que ele aceite ou busque ajuda. O adolescente e o adulto jovem também tendem a ser mais impulsivos e o risco aumenta principalmente quando associado a problemas emocionais e sociais, história familiar de transtorno psiquiátrico, rejeição familiar, negligência, além de abuso físico e sexual na infância. O suicídio também é elevado entre os idosos devido a fatores como perda de pessoas próximas, solidão, sensação de estar dando trabalho, desesperança.

 

Candeia – Uma mudança brusca e negativa, ou mesmo uma depressão, pode provocar uma atitude suicida?

Luiz Felipe – Pode sim, mas essas mudanças geralmente estão associadas a algum outro transtorno mental. Perdas financeiras, desemprego, perdas de familiares próximos, diagnósticos de doenças crônicas e incapacitantes, isolamento social, entre outros acontecimentos podem levar ao sentimento de desesperança, desespero, desamparo e se tornarem fatores de risco. A combinação entre impulsividade, desesperança e uso de substâncias é uma combinação particularmente letal. Situações políticas e econômicas como a pandemia e guerras também aumentam as taxa de depressão e ansiedade, levando assim ao aumento na taxa de suicídio. Muito importante é ressaltar que algumas habilidades psíquicas, como a resiliência e a flexibilidade, podem melhorar em muito a nossa qualidade de vida. Viktor Frankl, psicoterapeuta que passou três anos em condições terríveis como prisioneiro na segunda guerra mundial, conta em seu livro “Em Busca de Sentido” suas experiências vividas e como é possível preencher o vazio existencial com um sentido mesmo em condições adversas.

 

Candeia – Existe alguma população na qual o risco suicida pode se manifestar de forma diferente?

Luiz Felipe – Sim, tanto de forma negativa como positiva. Como dito anteriormente, adolescentes e idosos devem ter uma atenção especial. A população LGBTQIA+ também vem sendo estudada devido às dificuldades sociais que enfrenta. Na população indígena, o uso de drogas tem se tornado alarmante juntamente com o aumento da taxa de suicídio. Algumas populações, principalmente aquelas que têm algum vínculo com atividades que trazem sentido para sua vida, têm menores riscos de suicídio. Um bom suporte familiar, laços sociais bem estabelecidos com família e amigos, religiosidade, ter crianças em casa, senso de responsabilidade com a família, gravidez desejada e planejada, capacidade de adaptação e de resolução de problemas, além de acesso a educação e serviços de saúde são fatores protetores para a vida.

 

Candeia – O que fazer quando uma pessoa fala em tirar a própria vida?

Luiz Felipe – Ouvir de um amigo, colega de trabalho ou de um familiar que a pessoa pensa em se matar pode ser surpreendente e há quem não consiga lidar com a situação. Mas todos nós podemos nos prontificar a acolher, tentar ouvir, tentar nos colocar no lugar desta pessoa para tentar entender o que ela está sentindo, sem julgamentos. Não precisamos ter medo de não saber o que fazer. É apenas ouvir e oferecer ajuda. O que não devemos fazer é dar aqueles conselhos frios e que não ajudam, como “isso não é nada”, “você lembra da fulana, ela passou por uma situação muito pior que a sua e nunca fez isso que você está falando”, “pense positivo”, “você tem uma vida muito melhor que muitas pessoas” ou “foi você quem procurou isso”. Não, nunca faça isso! Apenas ouça e acolha. Orientar a pessoa a procurar ajuda é fundamental. Em alguns casos, comunicar os responsáveis ou a escola e encaminhá-la para um serviço de saúde. Estimular a buscar um serviço de auxílio como o CVV – Centro de Valorização da Vida pode ajudar. No Brasil, o CVV oferece atendimento voluntário e gratuito 24 horas por dia a quem está com pensamentos suicidas ou enfrenta outros problemas. Mesmo que você não tenha certeza de que precisa deste tipo de ajuda, não tenha receios em entrar em contato com o CVV. A organização atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio por meio do telefone 188. Em Bariri, qualquer unidade de saúde está apta a receber pacientes com queixa de ideação ou tentativa de suicídio.

 

Candeia – Qual o procedimento quando, num hospital ou unidade de saúde, é identificado um usuário que tentou suicídio?

Luiz Felipe – A equipe de saúde atenta e bem treinada considera qualquer tentativa ou intenção, por mais ingênua que se mostre, como fato relevante. A identificação e a avaliação do risco suicida são competências que dizem respeito a toda a rede de saúde, sendo fundamental que todos estejam capacitados para realizá-la. Na atenção básica, os profissionais irão identificar os casos, manejar as situações momentâneas e, se necessário, serão encaminhados para os serviços especializados. Já nos CAPS, unidades de saúde mental e serviços de urgência de hospitais gerais ou psiquiátricos, uma abordagem mais direcionada para situação de crise inicialmente será realizada. Posteriormente ao controle da crise e de forma mais completa, o tratamento para o quadro psiquiátrico de base será realizado e as questões vivenciais do paciente serão abordadas.

 

Candeia – Como psiquiatra, tem atendido casos assim?

Luiz Felipe – Diariamente, tanto na rede pública quanto no consultório, recebo pacientes que estão em momentos muito difíceis. Nestes momentos, os pacientes apresentam sintomas tão angustiantes que chegam a pensar que a única forma de se livrarem deste sofrimento é tirando a própria vida. No atendimento a estes pacientes, procuro avaliar cada caso individualmente, tentando ajudar cada um a reconhecer o que está gerando estes pensamentos e a criar ferramentas para lidar com suas questões pessoais. O tratamento medicamentoso também é instituído conforme a necessidade de cada um. Vale ressaltar que, atualmente, medicamentos psiquiátricos são extremamente seguros e, ao contrário do que muitos pensam, o tratamento pode trazer efeitos neuroprotetores, diminuindo processos inflamatórios e danos que podem surgir ao cérebro quando sintomas psiquiátricos não são tratados. O consultório fica na Rua Humaitá, 207 e o telefone é (14) 98106-5306 (WhatsApp).