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Na primeira edição do ano, o Candeia perguntou a quatro representantes de diversos segmentos da cidade os desafios do País e de Bariri para 2020. Participam da Entrevista da Semana o capitão da Polícia Militar (PM) Alexandre Andrade, a psicóloga Cristiane Regina dos Santos Barros Mellado, o engenheiro agrônomo José Fausto Tanganelli Filho e o comerciante Rodrigo Felício Zanuto de Oliveira. Alexandre Andrade, 44 anos, é nascido em São Paulo e comandante da 3ª companhia do 27º Batalhão da PM do Interior. Tem formação em curso superior de técnicas policiais, curso superior de administração em Segurança Pública e é bacharel e pós-graduado em Direito. Na área de policiamento, atuou em Pederneiras, Barueri, Igaraçu do Tietê e Barra Bonita e na área de investigação na Corregedoria da Polícia Militar. Cristiane Mellado, 52 anos, é especializada em psicologia clínica e da saúde, psicopedagoga habilitada em inclusão e mestra em psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem. Tem experiência de 24 anos em psicologia clínica, consultorias realizadas em psicologia escolar e aprendizagem desde 1998 em Bariri e região e há 3 anos atua como psicóloga técnica de instituição de acolhimento para crianças e adolescentes e para idosos a 6 meses. É representante no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) da LAV- Lar, Amor e Vida, antiga Casa Abrigo. Jô Tanganelli, 36 anos, é nascido em São Paulo e preside a Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Bariri (Assobari). Sempre atuou na propriedade da família na produção de café e há mais de 10 anos com a cana-de-açúcar. Está no ramo empresarial de plásticos há mais de 10 anos com injeção plástica e recuperação de resíduos industriais. Rodrigo Zanuto, 26 anos, nasceu em Bariri. É empresário na fabricação de móveis e exerce o segundo mandato como presidente do Conselho Municipal de Saúde de Bariri, presidente do conselho fiscal do Projeto Paz Recuperando Jovens, membro da comissão de intervenção da Santa Casa de Misericórdia de Bariri e responsável pela Igreja Ortodoxa São Jorge de Bariri.

Alexandre Andrade
“Apesar de desempenho operacional altíssimo não há o que comemorar”

Cristiane Mellado
“O aumento do adoecimento psíquico foi a maior preocupação em 2019”

Jô Tanganelli
“É preciso desburocratizar a máquina pública trazendo um ambiente de negócios favorável”

Rodrigo Zanuto
“O município sofre com a falta de emprego”

Candeia – Como analisa o ano de 2019, sob perspectiva de sua área de atuação?
Alexandre Andrade – Este ano de 2019 foi meu primeiro ano completo à frente da companhia de Polícia Militar em Bariri, haja vista que em 2018 cheguei já no segundo semestre; assim participei do planejamento e sua execução desde o princípio. Claro que não possuo todas as ferramentas que vislumbro necessárias para melhor desempenho, o que realizamos é a gestão da melhor forma possível com o que temos. Inclusive nossa regional (Batalhão de Jaú) recebeu o prêmio de gestão no grau prata, sendo o oitavo melhor do Estado em um universo de mais de cem unidades policiais militares avaliadas. Reflexo disso, os índices criminais são muito baixos, e ainda, este ano abaixamos mais. Usando a máxima, fazendo mais com menos. Apesar de desempenho operacional altíssimo não há o que comemorar, pois as poucas mortes que ocorreram em nossa cidade, no que pese haver resposta rápida com a prisão de todos, foram impactantes não só para os familiares e sim para toda a cidade, causando uma tristeza profunda e uma vitimização secundária em todos os munícipes.

Cristiane Mellado – Na minha área de atuação o aumento do adoecimento psíquico foi a maior preocupação em 2019, principalmente com o crescimento das tentativas de suicídio em nossa cidade. As condições de vida familiar, social e financeira em conjunto com o que as pessoas acreditam serem as necessidades que possam corresponder às expectativas e cobranças disseminadas pela sociedade são as principais causas desse adoecimento que podem ser verificados pela observação dos números de casos de ansiedades e depressões que são tratados em Bariri. Na adolescência esse panorama exigiu medidas de proteção também nas escolas, dadas as consequências da desestrutura pessoal e familiar ainda piorada pelo uso de drogas e o desemprego.

Jô Tanganelli – Vivemos um ano desafiador, tivemos na cultura de cana-de-açúcar um aumento de até 10% de produtividade em nossa região, mas comercializamos a tonelada de açúcar abaixo do custo de produção. Em contrapartida, entramos em uma safra mais alcooleira, a produção de etanol de cana atinge 33,5 bilhões de litros, aumento de até 23% em relação à safra anterior com valor do litro mais alto, permitindo uma sobrevida para o setor. O valor pago pela tonelada ao produtor de cana foi pouco a mais que o ano anterior, não chegou a 5%. Segundo a Única, desde 1º de abril até 16 de outubro foram moídas 510,3 milhões de toneladas, 5% a mais do que as 486 milhões da safra passada. No caso dos cultivos de larga escala e grande aporte tecnológico, o aumento dos preços internacionais dos fertilizantes foi o principal impulsionador dos custos, variando entre 15% a 30%. Na associação, sentimos diretamente as oscilações do setor sucroenergético, conseguindo mesmo assim manter todos os nossos serviços, assistências técnicas, médicas e sociais aos nossos produtores. Um ano de conquistas para nossa associação, depois de alguns anos como pioneiros na produção sustentável de cana-de-açúcar estamos iniciamos parcerias para venda de crédito de carbono e pagamento adicional por tonelada para os nossos produtores que possuem a certificação. Sairemos na frente para pleitear os benefícios da nova política do setor o Renovabio, estamos totalmente enquadrados nas exigências. Depois de anos de trabalho e dedicação dos nossos diretores e produtores que acreditaram na proposta estaremos colhendo em 2020.

Rodrigo Zanuto – No ano de 2019, como todos sabem, tivemos retrocessos como o ressurgimento do sarampo, que teve mais de 11 mil casos confirmados, e a epidemia de dengue, com 1,4 milhão de casos, uma média de 6 mil por dia, tivemos também avanços como o uso de substâncias psicodélicas para tratar doenças psiquiátricas, principalmente a depressão e o projeto 435/2019, que garante à gestante o direito de optar pela cesariana a partir de 39 semanas de gravidez. Para o comércio e a indústria houve um aquecimento, em especial ao comércio, com a liberação do FGTS. Acredito que o impulso ao consumo na reta final de 2019 terá um impacto no início de 2020. Com a atual taxa básica, a Selic, batendo recorde e chegando a 4,5% ao ano os brasileiros vão buscar diversificar seus investimentos, mas a redução das taxas ainda não chegou integralmente ao consumidor. Nós tivemos em dezembro aumento de 17% no preço médio da carne, segundo o IPCA-15. Tivemos dois anos de recessão profunda, 2015 e 2016, e três anos de crescimento econômico muito baixo (2017, 2018 e 2019). No geral eu vejo um crescimento econômico em até 2,5% para 2020, o que faz acreditar que 2019 foi um ano de retomada do fôlego.

Candeia – Tendo em vista a situação política e econômica atual, cite três prioridades para o Brasil em 2020.
Alexandre Andrade – Tratando de um país imenso, é cediço que as mudanças são muito lentas, por exemplo, uma moto faz suas mudanças de direção rapidamente no trânsito, já um navio para mudar seu curso é mais demorado, ele não muda de direção assim que o capitão determina o giro de timão; o mesmo acontece com o país. Há de serem feitas muitas mudanças agora para haver reflexos lá na frente; dessa forma, a prioridade no meu ponto de vista é primeiramente a mudança cultural, ou seja, dar importância para o ser supremo, independente de credo, para o estudo, para o trabalho e para as pessoas de bem. Temos que valorizar o Deus, o Brasil é sim um país cristão, a Constituição Federal não reflete o sentimento do povo ao citar que o país é laico, haja vista que no seu preâmbulo o próprio legislador cita que “promulgamos, sob a proteção de Deus”. Quanto ao estudo e o trabalho é alicerce para qualquer povo civilizado, não podemos achar que sem estudo posso ser presidente do País, temos que ter o sentimento que com muito trabalho e estudo posso ser presidente do País, independentemente de classe social a que pertenço; por fim, valorizando os exemplos corretos vamos dar a direção correta do “nosso navio”; “os nossos heróis não podem morrer de overdose”, eles têm que morrer em “campos de batalha”; dinheiro do Brasil tem que ter foto de heróis que a história consagrou e não de onça e garoupa.

Cristiane Mellado – As prioridades para o novo ano se repetem a cada ano iniciado, a esperança das pessoas renasce e espera-se que mudanças como melhorias socioeconômicas que influenciem positivamente a vida dos brasileiros finalmente aconteçam. Em minha opinião, nem teríamos como listar três prioridades, visto que todas as necessidades estão interligadas e, portanto, as mudanças para serem concretas precisam ocorrer em plano integrado. No entanto, consciência, comprometimento e seriedade poderiam ajudar!

Jô Tanganelli – O Brasil passou da estagnação para um início de crescimento, o novo governo começou várias mudanças básicas, conseguimos a reforma previdenciária de grande importância. É preciso desburocratizar a máquina pública trazendo um ambiente de negócios favorável a empresários, simplificar e diminuir o peso do Estado. Precisamos buscar criar um ambiente de negócios. Outra reforma em pauta necessária é a Tributária, simplificação dos tributos e diminuição nas cargas tributarias, trará um equilíbrio, um aumento e concorrência para a nossa indústria depois da abertura comercial proposta. Outro importante investimento é na infraestrutura (ferroviária, rodoviária e hidroviária), um dos grandes gargalos da nossa produção, necessário para ampliar nossas fronteiras agrícolas, diminuindo nosso custo, melhorando nossa concorrência em relação a outros produtos internacionais. Com a inflação baixa e estável, os juros na mínima histórica, crescimento acelerando e o desemprego gradualmente diminuindo, a confiança deve crescer e o País volta a engrenar.

Rodrigo Zanuto – A melhoria dos serviços de saúde foi a opção assinalada como prioridade por 87,64% dos 3.810 entrevistados da pesquisa Sistema de Indicadores de Percepção Social, em mais de 210 cidades brasileiras. Cortar gastos é a segunda, visto que a falta de recursos afeta todas as esferas. É preciso estabelecer prioridades do gasto público, por isso não faz muito sentido, por exemplo, quase triplicar os gastos do Fundo Eleitoral, criado em 2017, para financiar a campanha dos candidatos. Atualmente, o valor é de R$ 1,3 bilhão, mas o Congresso Nacional quer passar para R$ 3,7 bilhões. Esse valor é equivalente a 26% do que já foi gasto este ano em Atenção Básica da Saúde. Ou 37% dos recursos repassados ao ensino básico no país. E mais ainda: 13% de todo o investimento do Governo Federal previsto para 2019. Isso sem falar que no orçamento de 2020 há previsão de um rombo de R$ 124 bilhões. A terceira seria geração de emprego. Foram 99 mil novos postos de trabalho com carteira assinada, segundo o Caged, enquanto a mais otimista das previsões coletadas pelo “Projeções Broadcast” indicava saldo positivo de 67,8 mil vagas, mas na prática o brasileiro ainda sofre com isso. Houve ainda o crescimento do cadastro do Bolsa-Família num efeito da crise no mercado de trabalho. O benefício virou uma espécie de novo seguro-desemprego para quem não consegue se recolocar.

Candeia – Em relação a Bariri, quais os desafios do município para o ano que se inicia?
Alexandre Andrade – Como todo município os desafios são as contas públicas, pois o sistema tributário centraliza as verbas na União (governo federal), ficando os prefeitos reféns de convênios e emendas parlamentares, pois suas parcelas na arrecadação são muito baixas. Nossa cidade passou por muitas turbulências políticas, assim o primeiro desafio é manter a estabilidade política que o resto vai se acertando calmamente.

Cristiane Mellado – Na minha área de atuação, especificamente para as instituições de acolhimentos, entendo como desafio para o nosso município um trabalho sério que envolva as providências quanto ao aumento de oferta de empregos para nossa população; desenvolvimento de trabalhos sérios com estratégias de reestruturação familiar; eficiência nos atendimentos relacionados a saúde e a luta contra as drogas.

Jô Tanganelli – Vivemos nesses últimos anos uma grande indefinição política na nossa cidade, passamos por um momento de estagnação sem investimentos, precisamos entrar no próximo ano com objetivos e planejamentos que tragam de volta o desenvolvimento para a cidade. Precisamos neste ano fortalecer as empresas já instaladas que contribuem com grande número de empregos e impostos. O Estado tem um papel fundamental no desenvolvimento, principalmente em cidades pequenas, podendo direcionar e facilitar a entrada de novas empresas. Melhoramos a vida do cidadão com emprego gerando renda, assim aumentamos o consumo e a cidade cresce. Temos a necessidade de melhorar a segurança da cidade e inclusive no campo. Desenvolver cultura e lazer, investir no esporte tirando os jovens das ruas, como inúmeros exemplos que deram certo. Moramos em uma cidade pequena, mas muito forte, sediamos empresas de grande renome nacional que empregam muitas pessoas, uma cidade com total ligação no campo, grande produtora rural em cana-de-açúcar e hoje crescendo em outras importantes culturas. Tenho convicção do nosso desenvolvimento no próximo ano, temos todos os atributos para nosso crescimento.

Rodrigo Zanuto – A situação não é nada boa. A União já vem transferindo responsabilidade ao município em áreas como saúde, por exemplo. Estes são serviços de alta complexidade de execução que exigem, além de recursos financeiros altos, profissionais qualificados. Na área da saúde nosso município sofre com a disponibilidade de médicos especialistas que vêem o setor público menos atrativo pelo valor pago. Focando ainda na área da saúde, temos um número crescente de usuários que utilizam a central de medicamentos, e o número tende a aumentar. O município sofre com a falta de emprego, empresas não vêem Bariri como uma cidade atrativa para investimentos e nossos jovens têm buscado construir suas vidas fora da cidade. Os que aqui ficam brigam por vagas mal remuneradas em poucas empresas.