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Paulo Afonso

“Quando falamos nesse período de dez anos, é importante lembrar que o Brasil viveu sua pior crise econômica”

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontam que a região de Jaú teve menos contratações formais no período de 10 anos em comparação ao Estado de São Paulo e ao Brasil. Para o economista e educador financeiro Paulo Afonso, a crise nos setores do calçado e do agronegócio ajuda a explicar a queda nas admissões de 2009 a 2019. Esses segmentos estão presentes em Bariri, Barra Bonita, Bocaina e Jaú, cidades que sofreram na última década com a redução nos empregos formais. Segundo o economista, para reverter essa situação é preciso que a região atraia investimentos e tenha maior representatividade política. O entrevistado é professor doutor nas Faculdades Integradas de Jaú, professor orientador MBA Pecege – Esalq – USP, pós-graduado em Finanças (FIB-Bauru), MBA em Agronegócios e Agroenergia (Esalq-USP), doutor pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor em Gestão e Finanças. É professor das disciplinas de economia, economia brasileira, geopolítica e redação científica.

Candeia – Segundo o Caged, de 2009 a 2019 a região de Jaú teve queda de 44% nas contratações formais. No Estado de São Paulo a redução foi de 20% e no Brasil de 18%. Em sua opinião, por que a região admitiu número menor de trabalhadores na década?
Paulo Afonso – A região tem um pólo calçadista feminino muito forte, tanto que é conhecida como a Capital do Calçado Feminino. Quando falamos nesse período de dez anos, é importante lembrar que o Brasil viveu sua pior crise econômica. O funcionário que foi dispensado da grande indústria de calçado não teve alternativa senão abrir uma pequena indústria “de fundo de quintal”. É isso o que ele sabe fazer. E começou uma concorrência por preços entre o grande e o pequeno, mas nesse caso o custo operacional do pequeno é muito menor, e esse problema foi acentuado, além de questões de administração. Essa questão da queda também é refletida em outra região forte do calçado, no caso o masculino, que é Franca. Nesse período a queda foi de 35%.

Candeia – Cidades como Bariri e Barra Bonita também registram queda nas admissões da ordem de 45% na década, ao contrário de municípios menores, com exceção de Bocaina. Que análise o senhor faz desses números?
Paulo Afonso – Essas cidades têm sua economia girando em torno do agronegócio da cana-de-açúcar que enfrentou muitos problemas. O etanol deixou de ser competitivo frente à gasolina, política adotada pelo governo Dilma, que quase quebrou o setor sucroenergético. A situação do açúcar também não colaborou com os baixos preços no mercado internacional. Tudo isso foi somado ao baixo rendimento das lavouras ocasionado pelas condições climáticas (forte estiagem), a renovação inadequada dos canaviais e a falta de investimento nas lavouras.

Candeia – No ano passado a indústria da transformação foi o setor que teve maior saldo negativo de emprego em Bariri em comparação a 2018. Por quê?
Paulo Afonso – Isso não foi um problema localizado, a indústria de transformação teve um recuo de crescimento no ano passado, influenciado principalmente pela redução nas exportações para a Argentina e também pela desaceleração no ritmo de crescimento mundial, especialmente da economia chinesa. A indústria de um modo geral vem patinando nos últimos anos, reflexos da crise econômica criada durante o governo Dilma e que tem reflexos até hoje.

Candeia – O que é preciso ser feito para que a região tenha crescimento econômico e aumento no número de emprego?
Paulo Afonso – É preciso que haja atuação maior dos nossos governantes, não temos representação em Brasília, e quando digo representação, falo de deputados eleitos em nossa região e que trabalhem para a nossa região. Para isso é preciso mais união política deixando de lado as rivalidades. Outra ação é melhorar o que já temos, se Jaú ainda é conhecida como a Capital do Calçado Feminino, se existe toda uma estrutura que foi criado ao longo dos anos em cima disso, não se pode dispensar do nada. É preciso trazer conhecimentos para nosso empresariado, melhorar seu nível de profissionalização em áreas como marketing, finanças, vendas, exportação, por exemplo. Na minha visão, a região de Jaú deverá ser um grande polo de saúde nos próximos com a vinda de universidades e construção de hospitais, tudo isso fruto de investimento privado.

Candeia – Qual sua expectativa em reação ao cenário macroeconômico para 2020?
Paulo Afonso – A economia brasileira chegou ao final de 2019 com sinais sólidos de retomada do crescimento. Durante o ano ocorreram diversos choques, como o evento de Brumadinho; crise na Argentina, desaceleração global, e isso impediu um processo mais firme de recuperação. Alguns fatores pontuais impulsionaram o crescimento no segundo semestre, com destaque para a liberação dos saques do FGTS, favorecendo a expansão do crédito e estimulando as vendas. O empresariado está mais confiante, principalmente depois da aprovação da Reforma da Previdência e do anúncio de uma agenda de medidas, como a reforma tributária. Para 2020, a expectativa é de um crescimento do PIB em torno de 2,5% a 2,8%, com uma inflação baixa também, na casa dos 3,8% e taxa Selic pode chegar a 4% ao ano, conforme algumas previsões. Tudo isso também vai depender mais do cenário externo. A expansão das exportações encontrará limitações diante do desaquecimento de nossos principais mercados (China, União Europeia, Argentina), além da queda nos preços internacionais das commodities.

Candeia – O município de Jaú não tem se colocado como uma liderança regional, até porque, segundo o Caged, a cidade registrou redução nas contratações de 45% de 2010 a 2019. O senhor concorda? Por quê?
Paulo Afonso – A cidade de Jaú tem grande importância para a nossa região. Costumo dizer que “o que é bom para Jaú é bom para toda a região”. É a maior cidade, mas minha impressão é que nos últimos anos a cidade parou no tempo quando comparada com outras regiões. Não percebo grandes investimentos. Nesse período de 2010 a 2019 quais foram os grandes investimentos em nossa região? É importante, sim, que Jaú seja a Capital do Calçado Feminino, mas também é importante ter uma economia diversificada. Tudo isso vem de um poder público mais atuante, com projetos consistentes, com um programa de futuro. É preciso criar um grupo de estudos para discutir Jaú, qual será os próximos passos para os próximos dez anos.

Candeia – Recentemente o governo estadual realizou a concessão do Lote Piracicaba – Panorama, com trecho de rodovia que passa pela região. O senhor acredita que o investimento, mesmo à custa de pedágios, possa atrair investimentos?
Paulo Afonso – Essa será uma tendência daqui pra frente. O Estado não tem mais como cuidar de tudo, e para isso entrega à iniciativa privada. O Estado, na verdade, deveria cuidar de educação, saúde e segurança. A iniciativa privada assume, melhora a infraestrutura e cobra por isso. Das 10 melhores estradas do Brasil, todas estão no estado de São Paulo. Regiões com boa infraestrutura têm maior probabilidade de atrair investimentos. É claro que só isso não basta, precisa também de mão de obra qualificada.