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Entrevista da Semana – ‘No trânsito, acima de 70 km/h estamos quase todos condenados’

17 set, 2021

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José Heverardo da Costa Montal – “Crianças, adolescentes e adultos jovens constituem as vítimas preferenciais do trânsito. Países que reduziram significativamente a morbimortalidade decorrente de sinistros de trânsito investiram vigorosamente na educação”

 

O Dia Nacional do Trânsito é comemorado em 25 de setembro. Para tratar desse assunto o Candeia entrevistou o especialista em medicina do tráfego pela Associação Médica Brasileira (AMB) José Heverardo da Costa Montal. Ele afirma que a alta velocidade é o maior vilão entre os fatores de risco para acidentes porque provoca acidentes e agrava os ferimentos. “Nossa capacidade foi projetada para velocidades em torno de 30 km/h e a partir daí a morte nos espreita”, alerta José Montal. “A partir de 70 km/h estamos quase todos condenados, mesmo resguardados pelo uso do engenho que é equiparado, pelos médicos do tráfego, às vacinas: o cinto de segurança.” Ele destaca que é preciso colocar-se no lugar do outro para evitar acidentes, além de conhecer as leis e respeitá-las. José Montal é membro fundador da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) e membro titular da Câmara Temática de Educação e Saúde para o Trânsito (CTES) do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Também é diretor editorial da Revista Abramet e diretor administrativo da Abramet.

 

Candeia – Quando a Abramet foi criada e qual o trabalho realizado pela associação?

José Montal – A Abramet foi fundada no dia 19 de agosto de 1980. É a sociedade científica que congrega os médicos especialistas em medicina do tráfego, sendo a responsável pela realização de estudos, análises e pesquisas sobre as diversas facetas da mobilidade humana, cuidando da preservação do bem-estar biopsiquicossocial do homem que se desloca e da interação dos mecanismos que propiciam este deslocamento com a ecologia humana. Entre eles, a emissão de poluentes pela queima de combustíveis fósseis e os eventos indesejados da circulação viária (sinistros de trânsito). São motivos de orgulho para a Abramet e para a medicina a participação na elaboração da chamada Lei Seca, que resultou em queda de 30% nos índices de mortalidade do trânsito brasileiro imediatamente após sua implementação, e da Lei das Cadeirinhas, voltada para o transporte seguro de crianças, e igualmente responsável por expressiva diminuição da mortalidade nesse grupo etário (cerca de 23%).

 

Candeia – O Brasil é um dos campeões mundiais em mortes provocadas por acidentes de trânsito. Quais as causas dessa triste estatística?

José Montal – A Organização Mundial da Saúde afirma que cerca de 90% das mortes decorrentes de sinistros de trânsito no mundo acontecem em países economicamente subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, apesar de contarem somente com 50% da frota de veículos automotores.

 

Candeia – De que forma cada motorista e a sociedade podem atuar para a redução dos acidentes de trânsito?

José Montal – Grande número de campanhas voltadas para a segurança no trânsito enfatiza a necessidade de conduzir com responsabilidade, respeitando as regras contidas no Código de Trânsito. A empatia, no trânsito, é questão de sobrevivência. Colocar-se no lugar do outro evitaria a maioria dos conflitos de trânsito e muitos acidentes com vítimas. Conhecer as leis e respeitá-las é um ato de cidadania. Não por acaso, na maioria dos sinistros de trânsito há a participação dos grandes infratores, que representam tão somente cerca de 5% do universo total de condutores. Nosso momento civilizatório não é dos melhores do mundo. Em alguns estados brasileiros, 70% dos condutores não têm CNH, não estando, portanto, devidamente habilitados para conduzir este tipo de veículo. E se acidentam muito, ocupando mais de 70% dos leitos hospitalares de emergência disponíveis. A existência de um Código de Trânsito com mais de 300 artigos é, por si só, um indicador da complexidade do fenômeno “trânsito”. E já no seu primeiro artigo o CTB determina que todos os órgãos e entidades de trânsito pertencentes ao Sistema Nacional de Trânsito (SNT) darão prioridade em suas ações à defesa da vida, nela incluída a preservação da saúde e do meio ambiente. Comunicar o código com competência é medida que vai na direção da vida.

 

Candeia – Em sua opinião, a legislação brasileira teria de passar por alterações? Quais as principais?

José Montal – Sob o ponto de vista do texto, o Código de Trânsito Brasileiro é considerado bem redigido, contemplando todos os aspectos da circulação viária e é visto como rigoroso tanto quanto ao comportamento dos condutores quanto às penalidades previstas.

 

Candeia – Como o senhor avalia a questão da educação no trânsito nos níveis escolares?

José Montal – Crianças, adolescentes e adultos jovens constituem as vítimas preferenciais do trânsito. Países que reduziram significativamente a morbimortalidade decorrente de sinistros de trânsito investiram vigorosamente na educação e um dos alvos deste esforço foi dirigido ao ensino de valores humanos básicos, tais como ética, respeito e autorrespeito, autoestima, empatia… Países como a Espanha e Portugal conseguiram reduzir espetacularmente a mortalidade nesses grupos etários. Reduziram a mortalidade para níveis encontrados na década de 1960, mesmo considerando o vigoroso aumento da frota e da população. Na Espanha, a redução foi de mais de 80% entre os mais jovens.

 

Candeia – Qual o impacto dos acidentes de trânsito na saúde e na economia do País?

José Montal – A morbimortalidade provocada pelo trânsito é considerada uma tragédia epidemiológica. No Brasil, morrem cinco pessoas a cada hora. A taxa brasileira é quatro a cinco vezes mais elevada que a de países que tratam o problema trânsito com decência. Aqui ainda se reclama do controle da velocidade, o maior vilão entre os fatores de risco para acidentes. Provoca acidentes e agrava os ferimentos, sendo notável a pouca resistência do corpo humano, e não só, aos impactos em velocidade. O motor a explosão mudou a história da resistência do corpo humano em relação à desaceleração brusca. A engenharia darwiniana da evolução não contava com a fantástica e abrupta invenção humana. Nossa capacidade foi projetada para velocidades em torno de 30 km/h e a partir daí a morte nos espreita. A partir de 70 km/h estamos quase todos condenados, mesmo resguardados pelo uso do engenho que é equiparado, pelos médicos do tráfego, às vacinas: o cinto de segurança. Os que atuam em hospitais de emergência sabem bem da ameaça à vida que os acidentes, que não são acidentais, e ficam indignados quando se atribui à famigerada indústria da multa as medidas voltadas para o controle da velocidade no trânsito.

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