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Na segunda-feira (8) é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Por esse motivo, o Candeia ouviu quatro mulheres que atuam profissionalmente no município sobre ações necessárias a uma participação mais efetiva do público feminino na sociedade e no trabalho, se o fato de serem mulheres (e não homens) ajudou ou prejudicou na construção da carreira e os efeitos da pandemia da Covid-19, especialmente para elas. Foram entrevistas a dentista Fernanda Paleari Salina, a professora Flavia Adolf Lutz Keller, a promotora de Justiça Gabriela Silva Gonçalves Salvador e a conselheira tutelar Meire Gasparotto.

Fernanda Paleari Salina

“As medidas a serem adotadas se baseiam na conscientização e auxílio às pessoas mais vulneráveis. Cada caso deveria ser discutido com muita responsabilidade”

Flavia Adolf Lutz Keller

“A mulher precisa ter iniciativa, agir na busca de novas conquistas, se aperfeiçoar, buscar a profissionalização, seu espaço no mundo, valorizar-se e ser valorizada”

Gabriela Silva Gonçalves Salvador

“É imprescindível que as mulheres vítimas de violência doméstica sintam-se encorajadas a denunciar seus agressores para que possam receber efetiva proteção do Estado e até da sociedade civil”

Meire Gasparotto

“Foi através da pandemia da Covid-19 que pudemos ter acesso às estatísticas e ter uma noção da tamanha violência que a mulher sofre, principalmente dentro de casa”

 

Candeia – Em sua opinião, quais ações deveriam ser colocadas em prática para garantir às mulheres uma participação mais efetiva no trabalho e na sociedade?

 

Fernanda – A figura da mulher passou a ser algo extremamente importante na sociedade atual. Com o tempo a mulher vem conseguindo aumentar seu espaço nas estruturas sociais, assumindo postos de trabalho e cargos importantes em empresas. Este espaço conquistado está em constante expansão, pois sabemos que a mulher possui capacidade para desempenhar com maestria qualquer função para a qual for designada. Em minha área, por exemplo, já ouvi inúmeras vezes que pacientes preferem fazer seus tratamentos, principalmente cirúrgicos, com dentista do gênero feminino, pois são mais delicadas e atenciosas! Então creio que estejamos no caminho certo! E no futuro teremos cada vez mais mulheres em lugares de destaque na sociedade.

 

Flávia – Durante muitos séculos, o espaço da mulher no mercado de trabalho e na sociedade foi muito restrito, cabendo a ela basicamente os serviços domésticos. Hoje estamos conseguindo nosso espaço. Para isso é primordial que a mulher mostre seu trabalho, sua competência, suas qualidades e use muita sabedoria para conquistar novas oportunidades. A mulher precisa ter iniciativa, agir na busca de novas conquistas, se aperfeiçoar, buscar a profissionalização, seu espaço no mundo, valorizar-se e ser valorizada. Junto a isso, devemos acrescentar as políticas públicas que dão cada vez mais voz e vez para as mulheres, garantindo direitos básicos como igualdade salarial, atendimento especializado como as delegacias para mulheres e valorização em programas assistenciais como Minha Casa, Minha vida, reconhecendo a mulher como o alicerce da família.

 

Gabriela – É necessário se desvencilhar de uma histórica cultura de submissão das mulheres, infelizmente existente no nosso País, para dar efetiva concretude aos objetivos de nossa República Federativa estampados no artigo 3º da Constituição Federal, notadamente para construção de uma sociedade livre, justa e solidária e que promova o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Essa busca de efetiva participação das mulheres em todos os campos decorre de luta árdua de rompimento à antiga ideia de que a participação das mulheres deveria se restringir ao ambiente privado. Dessa forma, é necessário o amplo e público debate a respeito da necessidade de se extirpar qualquer forma de discriminação contra as mulheres. Referidas ideias devem ser discutidas notadamente no âmbito das escolas, ganhando corpo em todo o decorrer da vida escolar e acadêmica para, com isso, serem formados cidadãos conscientes a respeito do tema e que possam difundir os valores de efetiva igualdade entre todos, sem preconceito de gênero. Aliás, a Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) prevê expressamente em seu artigo 8º, inciso IX, “o destaque, nos currículos escolares de todos os níveis de ensino, para os conteúdos relativos aos direitos humanos, à equidade de gênero e de raça ou etnia e ao problema da violência doméstica e familiar contra a mulher.” Tais mudanças de mentalidade e de postura certamente valorizarão as mulheres no mercado de trabalho, em respeito notadamente à sua capacidade ímpar de possuir jornada dupla, ou seja, no trabalho e em casa. Lado outro, a participação da mulher na sociedade também reflete participação na vida política. De fato, houve um crescimento de mulheres eleitas, porém, o número é muito baixo se comparado ao número de homens que exercem cargos eletivos, em largo contraste, em especial porque a maioria do eleitorado brasileiro é composto por mulheres. Medidas legislativas e decisões judiciais foram proferidas justamente para se viabilizar essa maior representatividade feminina nas disputas eleitorais. Dessa forma, pode-se dizer que verdadeiras “ações afirmativas” estão sendo desenvolvidas ao longo dos anos para concretizar o princípio da igualdade previsto na Constituição Federal.

 

Meire – Hoje podemos afirmar que as mulheres possuem maior autonomia, liberdade de expressão, em outras palavras, deixamos de ser coadjuvantes e assumimos um papel diferente na sociedade, dando assim voz ativa ao nosso senso crítico, passamos a existir, deixamos de ser apenas uma sombra. Encontramos com frequência, hoje, mulheres assumindo postos de comando, em escolas, universidades, na área da política, etc. Contudo, ainda existem mulheres que acreditam numa inferioridade e submissão natural em relação ao homem. Porém, penso que através de campanhas, palestras, encontros, rodas de conversas, seria possível fazer-se entender a tamanha importância da “defesa dos direitos de igualdade entre homens e mulheres”.

 

Candeia – Ser mulher, e não homem, ajudou ou prejudicou quando quis construir uma carreira ou materializar um projeto?

 

Fernanda – Com relação a minha trajetória profissional, nunca senti qualquer dificuldade por ser mulher. Mesmo quando resolvi cursar a pós-graduação em implantodontia, visto que a área cirúrgica é de predominância masculina. Inclusive tive três grandes incentivadores durante a minha graduação, o primeiro foi um professor de cirurgia, o dr. Clóvis Marzola, quando disse a ele que gostava de cirurgia ele me incentivou muito! Dizia que as mulheres quando se põem a entrar numa área, entram de coração. Outro foi meu marido, que já atuava na área odontológica em nosso laboratório de próteses, ele sempre me incentivou, me estimulou e apoiou toda a minha formação profissional. Por último cito também o dr. Rago, que me convidava para participar de cirurgias que ele iria realizar, tanto implantes, quanto cirurgias em ambiente hospitalar, em cidades vizinhas… estagiei com ele durante os quatro anos de minha graduação, aproveitando os períodos de férias da faculdade. Ou seja, meus maiores incentivadores a ingressar nessa área foram homens.

 

Flávia – De modo geral, a carreira que escolhi, no caso o magistério, culturalmente é um espaço ocupado pela maioria de mulheres, mas, ser mulher e ser professora é um duplo desafio e sabemos que na educação, não existe zona de conforto. Vivemos sempre riscos e incertezas eminentes. As possibilidades surgem junto aos desafios: ser feliz; humana; manter-se atualizada, mostrar meu conhecimento, comprometimento, formação constante e jogo de cintura entre outras tantas demandas, e com isso conquistar alunos, pais e a confiança dos meus pares, tendo sempre a convicção de que os estudantes são o principal patrimônio da instituição escolar e construir uma educação de qualidade, permeia toda a grandeza de ser mulher!

 

Gabriela – Posso afirmar que ao ingressar no Ministério Público Paulista me deparei com efetiva concretização ao elementar princípio da igualdade, eis que o concurso público de ingresso segue rigorosamente aos Princípios que regem a Administração Pública e, obviamente, não faz qualquer tipo de distinção entre os candidatos, vez que atende efetivamente aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Nessa perspectiva, a Instituição é marcada por sua pluralidade de ideias e debates, não havendo que se cogitar em privilégios ou prejuízos pela condição de gênero entre os candidatos de seu concurso de ingresso, ou mesmo entre seus membros e servidores. Aliás, pode-se afirmar que cada vez mais mulheres ocupam cargos públicos nas mais variadas carreiras, observando-se grande representatividade de mulheres no Ministério Público, no Poder Judiciário, na Defensoria Pública e nas carreiras policiais, resultado da competência e pleno empenho no exercício de suas funções.

 

Meire – Venho de uma família onde o poder do homem em relação à mulher nunca existiu, meus pais sempre dividiram igualmente as tarefas da casa, a criação dos filhos, as decisões importantes e até mesmo em relação a parte financeira, nunca houve “um provedor”, sempre foram os dois juntos que mantinham o sustento da família. Porém, não era essa realidade que muitas vezes presenciei na casa das minhas tias, nas minhas amigas, enfim, em outros lares. Mesmo no ambiente de trabalho sempre existiu a fala machista do homem, as imposições, as brincadeiras sem graça. Contudo, sempre soube me impor, nunca achando que pelo fato de ser mulher deveria aceitar isso ou aquilo, ou mesmo ser submissa ou desrespeitada por quem quer que fosse.

 

Candeia – As mulheres têm sido afetadas de diversas maneiras pela pandemia de Covid-19, como perda da renda, falta de creches e escolas, impossibilidade de adotar medidas de distanciamento social e o aumento da violência doméstica. Que medidas a senhora sugere para combater os “efeitos colaterais” da pandemia sobre a mulher?

 

Fernanda – Realmente essa pandemia trouxe inúmeros problemas a toda a sociedade, em especial às mulheres. Um grande número de mulheres, além de seu trabalho tem que lidar com a maioria das responsabilidades domésticas, aumentadas pela pandemia se considerarmos, por exemplo, a necessidade de realização das atividades escolares com os filhos e, além disso, lidar com incertezas com relação ao emprego e reduções de salário. As medidas a serem adotadas, em meu ponto de vista, se baseiam na conscientização e auxílio às pessoas mais vulneráveis. Cada caso deveria ser discutido com muita responsabilidade.

 

Flávia – A pandemia tem sido um momento muito triste de nossa história, com perdas tanto emocionais quanto financeiras. Especialmente para a mulher, que já possui um acúmulo de funções – mãe, dona de casa, esposa, trabalhadora – esse isolamento trouxe à tona as fragilidades da nossa sociedade, mulheres em situações de vulnerabilidade, ajudando os filhos nas funções escolares, dobrando o turno de trabalhado e em alguns casos aumentando os conflitos domésticos. Para minimizar esses efeitos é necessário que a mulher se sinta acolhida e amparada. E essa ajuda pode vir de todos os lugares: um filho que respeita sua mãe e a ajuda nos pequenos afazeres domésticos, no marido que divide as responsabilidades com a casa e a educação dos filhos, no empregador que age com empatia e compreende os problemas enfrentados pela trabalhadora, o vizinho que ajuda a carregar as compras, criar uma rede de proteção e acolhimento a todas as mulheres, fazendo com que se sintam importantes e amparadas para geração de uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Gabriela – Infelizmente os efeitos devastadores da pandemia são inerentes a todos nós. Contudo, diagnosticou-se o incremento da violência doméstica, que há tanto tempo se tenta combater. Nesse viés de vítima de violência doméstica em momento de calamidade pública, é imprescindível efetiva implementação dos mecanismos de assistência à mulher previstos na Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) no âmbito do SUS, da Assistência Social e no Sistema Único de Segurança Pública, nas mais variadas formas, seja com efetiva proteção policial; pronta e eficaz disponibilização dos serviços de saúde, notadamente na área da saúde mental, e assistência social a ela e aos seus dependentes, por intermédio de inscrição em cadastros de programas assistenciais do governo federal, estadual e municipal. Aliás, considerando que geralmente a Autoridade Policial é a primeira a tomar conhecimento da situação de violência doméstica, ela mesma poderá requisitar os serviços públicos necessários à defesa da mulher e de seus dependentes. Desta forma, é imprescindível que as mulheres vítimas de violência doméstica, notadamente nessa fase da pandemia, sintam-se encorajadas a denunciar seus agressores para que possam receber efetiva proteção do Estado e até da sociedade civil, pois no âmbito do sistema de Justiça poderão ser encaminhadas a programas oficial e comunitário de proteção ou de atendimento.

 

Meire – A sociedade como um todo tem de entender que não se deve silenciar, tem que se sentir incomodada com o que acontece na casa do vizinho SIM, com a mulher agredida na rua SIM, não podemos ser omissos a nenhum tipo de violência, temos que sair da zona de conforto, não se pode mais fingir que isso, ou aquilo é normal, que foi só uma vez, porque ela tava nervoso, ou que a mulher é culpada, porque tava com uma roupa curta, não são as mulheres as culpadas e sim os homens que são agressores, opressores, estupradores… A violência contra a mulher pode se manifestar de várias formas e com diferentes graus de severidade. Estas formas de violência não se produzem isoladamente, mas fazem parte de uma sequência crescente de episódios, do qual o homicídio é a manifestação mais extrema. Dentre algumas violências se destacam a doméstica, a física, a sexual e a psicológica. Foi através da pandemia da Covid-19 que pudemos ter acesso às estatísticas e ter uma noção da tamanha violência que a mulher sofre, principalmente dentro de casa, onde deveria ser um lugar seguro. Acredito que além das denúncias, da criação da casa da mulher, delegacias da mulher, hoje existe a extrema necessidade da Elaboração e Criação de Políticas Públicas de Segurança voltada para as mulheres, só assim talvez possamos diminuir as estatísticas, a que tivemos conhecimento.

 

Saiba mais sobre as entrevistadas

 

Fernanda Paleari Salina nasceu em Bariri em 1983. Formou-se em 2005 como cirurgiã-dentista pela Universidade Paulista (Unip), campus Bauru, sendo contemplada com o prêmio João Sampaio Dória. Possui pós-graduações em Cirurgia Avançada em Dentes Retidos, Implantodontia, Prótese sob Implantes, Endodontia em Molares e Ortodontia. Atuou por um ano em clínica de Bariri e depois passou a trabalhar como cirurgiã-dentista na empresa Máfer Odontologia, juntamente com o marido, Marcos, que já atuava no ramo de prótese dentária.

 

Flavia Adolf Lutz Keller nasceu em Bariri em 1975. Possui licenciatura em Matemática pela Unesp, campus de Bauru, e em Pedagogia pela Uninove e mestrado em Matemática pela Ufscar. É professora de Matemática em escolas estaduais desde 1994, professora de Matemática na Coeba desde o início da escola, em 1998, coordenadora pedagógica na Escola Professora Idalina Vianna Ferro desde 2008. Também é vice-diretora e coordenadora pedagógica na Coeba.

 

Gabriela Silva Gonçalves Salvador nasceu em Bauru em 1988. Possui formação pela Faculdade de Direito de Bauru (Instituição Toledo de Ensino). Durante a faculdade estagiou na Procuradoria do INSS e no Ministério Público Federal. Advogou por breve período e ingressou inicialmente no Ministério Público de São Paulo em 2014 como analista de promotoria. Tomou posse como promotora de Justiça em janeiro de 2016 e, por quase quatro anos, trabalhou como promotora de Justiça substituta em diversas comarcas pelo Estado de São Paulo. Em novembro de 2019 foi promovida ao titularizar à 2ª Promotoria de Justiça de Bariri.

 

Meire Gasparotto tem 44 anos e é casada com Ednaldo Rainere. O casal tem dois filhos: José Renato e Giovanna. Meire é filha de Pedro Gasparotto e Ismair de Oliveira Gasparotto. É assistente social, tendo trabalhado por 22 anos na prefeitura de Bariri na área social com programas voltados para mulheres, como os programas Bolsa Família, Renda Cidadã, entre outros. Esteve na coordenação do Programa Criança Feliz e do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos Espaço Amigo 2. Hoje atua como conselheira tutelar e artesã, no Ateliê Meire Gasparotto.