
Paulo Fernando Crepaldi – “Há alguns alimentos que ingerimos que podem fortalecer o nosso sistema imunológico; os suplementos não devem ser usados sem a orientação do profissional de saúde habilitado a prescrevê-los”
Em época de pandemia da Covid-19 há muitas informações sendo veiculadas sobre o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo. As vacinas, por exemplo, têm a função de preparar o corpo para o enfrentamento da doença. Para tirar dúvidas sobre essa e outras questões, o Candeia entrevista nesta semana o cientista de alimentos & farmacêutico clínico hospital e esteta Paulo Fernando Crepaldi. Segundo ele, é possível aumentar a imunidade, mas sempre com orientação de profissionais. Paulo Crepaldi fala também da importância das vitaminas e fatores que podem melhorar ou dificultar a absorção delas.
Candeia – Em época de pandemia da Covid-19, muito se tem falado sobre sistema imunológico. Mas, afinal, o que é o sistema imunológico?
Paulo Crepaldi – O sistema imunológico é essencial para que o organismo consiga se defender da ação de agentes nocivos à saúde. O sistema imunológico é a parte encarregada de nos proteger contra vírus e bactérias que tentam nos infectar. Ele é formado por diversas células, e cada uma delas também exerce funções específicas. As células que constituem o sistema imune são chamadas de glóbulos brancos ou leucócitos. O sistema imune possui respostas diferentes e complexas contra invasores, sendo a principal delas constituída pelos anticorpos produzidos pelos glóbulos brancos e pela capacidade de combater ameaças armazenadas nas células de memória.
Candeia – Estresse, falta de sono, consumo excessivo de álcool etc. afetam o sistema imunológico? Por quê?
Paulo Crepaldi – Quando o sistema imunológico é comprometido deve-se redobrar a atenção para os riscos, ainda mais porque diversos fatores contribuem para uma baixa na imunidade. Má alimentação, falta de cuidados com a higiene, estresse, consumo de drogas e bebida alcoólica e mudanças climáticas são alguns deles. O que todas essas condições têm em comum, além de afetarem o sistema imunológico, é que tornam o corpo mais suscetível a doenças, o que em parte se deve à exposição crônica ao excesso de cortisol e adrenalina, mediadores hormonais reconhecidamente ligados ao estresse e que inibem as células do sistema imune.
Candeia – Na pandemia de Covid-19, o que as pessoas podem fazer para aumentar a imunidade?
Paulo Crepaldi – Não existe nenhum alimento ou vitamina capaz de combater o novo coronavírus, porém alguns alimentos que ingerimos podem fortalecer o nosso sistema imunológico. Geralmente, as pessoas buscam dois caminhos principais: o uso de suplementos alimentares e fórmulas de medicamentos com vitaminas ou a alimentação saudável e rica em nutrientes. As duas opções são válidas, mas entenda que não existe nenhum alimento ou recurso terapêutico milagroso. Os suplementos não devem ser usados sem a orientação do profissional de saúde habilitado a prescrevê-los.
Candeia – Que prejuízos podem ocorrer às pessoas com a ingestão de vitaminas em excesso?
Paulo Crepaldi – Durante a pandemia do novo coronavírus, um assunto ganhou destaque: a suplementação de nutrientes, em especial das vitaminas D e C, supostamente para evitar a Covid-19. Além dos riscos do consumo descontrolado, ao que se conhece atualmente, nenhuma vitamina tem ação de tratamento ou prevenção na pandemia por Covid-19. A vitamina D, já relacionada com a melhora da resposta imunológica, quando ingerida em excesso pode causar aumento exagerado de íons de cálcio que, depositados nas artérias e em órgãos como os rins, causam lesões permanentes. O indivíduo intoxicado por esse nutriente em excesso pode apresentar sintomas como náuseas, vômitos e aumento da pressão arterial. Em excesso, a vitamina C pode causar diarreia e, cronicamente, causar cálculos urinários. A intoxicação vitamínica acontece mais facilmente com as vitaminas lipossolúveis, A, D, E e K, que se dissolvem em gorduras, sendo seus excessos de difícil eliminação pelo organismo. Assim, como cada nutriente tem funções distintas, o excesso de cada um provoca consequências diferentes. Enquanto megadoses de vitamina E podem levar a fenômenos hemorrágicos e ao aumento da mortalidade no longo prazo, a vitamina K está ligada à coagulação sanguínea. Já a vitamina A, conhecida por beneficiar a visão, pode causar problemas neurológicos semelhantes à meningite e cefaléia intensa, quando administrada em excesso, além de oferecer risco de malformação do feto para gestantes.
Candeia – Quais as substâncias que prejudicam a absorção das vitaminas?
Paulo Crepaldi – Existem muitas competições de microcomponentes dentro do nosso organismo. Quando fazemos algumas misturas alimentares, até mesmo conhecidas como saudáveis, corremos o risco de atrapalhar a absorção de nutrientes importantes. No caso do café com leite, a cafeína e os taninos presentes no café fazem com que o cálcio do leite não seja absorvido. Almoçar e tomar aquele copão de água ou suco logo em seguida também pode prejudicar a digestão de nutrientes. A água dilui as enzimas do suco gástrico, diminuindo a sua concentração. O ideal é beber líquidos 30 minutos antes das refeições e uma hora depois, para não gerar desconforto estomacal. Outra combinação pouco saudável, apesar de popular, são sucos com leite consumidos juntamente com carnes vermelhas durante o almoço. Nesse caso, o corpo priorizará a absorção do cálcio, enquanto que o ferro presente na carne, um importante elemento no combate a anemia, não será absorvido. O interessante é tentar experimentar sempre os alimentos separadamente: uma fonte só de carboidrato, uma fonte só de proteína, uma fonte só de leguminosas, para conseguir ter a absorção completa.
Candeia – Em relação a alimentos e hábitos de vida, quais as orientações?
Paulo Crepaldi – Para evitar todas essas complicações relacionadas à baixa imunidade e elevar a defesa do organismo, é fundamental seguir um estilo de vida saudável. Para isso, torna-se necessário adotar alguns hábitos, tais como manter uma dieta balanceada, repleta de frutas e vegetais, praticar exercícios físicos regularmente em intensidade moderada e ter sempre boas noites de sono, variando entre seis e nove horas. A exposição ao sol também é essencial, pois isso possibilita a produção de vitamina D, peça vital para o bom funcionamento do sistema imunológico. No entanto, é bom não abusar, pois o excesso pode trazer problemas ao corpo. A exposição deve ser moderada, já que se prolongada, é possível haver danos às células e inflamações capazes de prejudicar o sistema imunológico. Neste sentido, recomendo tomar banho de sol antes das 10h e depois das 16h.
























