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Maria Pia Betti Pio da Silva Nary – “Enquanto não houver alguém com interesse real na cidade, as coisas irão continuar da forma como estão ou até mesmo piorarem”

 

A candidata a prefeito de Bariri Maria Pia Betti Pio da Silva Nary (DEM) é a primeira entrevistada do Jornal Candeia. A ordem de veiculação pelas redes sociais e publicação no jornal impresso foi definida por sorteio prévio com participação de representantes das quatro coligações que disputam a prefeitura de Bariri. A gravação da entrevista (que irá ao ar neste sábado, dia 17, pelo Facebook do Candeia) foi feita na terça-feira, dia 13, no auditório da Associação Comercial e Industrial de Bariri (Acib), local que dispõe de boa infraestrutura e permite o distanciamento entre as pessoas. Na conversa de 30 minutos (tempo igual para os outros candidatos), Maria Pia, que esteve acompanhada do candidato a vice, Carlos Antonio Sampietro (PP), disse que a prefeitura tem papel fundamental na geração de emprego. Segundo ela, o município carece de foco, cuidado e gestão. Na entrevista, ela fala também sobre Saúde (afirma que a intervenção na Santa Casa deve continuar por mais um ano, no máximo), Educação, reforma administrativa e o papel da mulher na política.

 

Candeia – Por que decidiu sair candidata a prefeito?

Maria Pia – Estava bem desmotivada, mas decidi continuar na política. Tinha decidido que não seria mais candidata a nada. Porém, com uma fake news lançada há um tempo dizendo que estava como pré-candidata a prefeito, do dia para a noite surgiram pessoas interessadas em formar um grupo novo. Não fizemos alianças com grupos políticos do passado, temos uma equipe realmente nova de candidatos a vereador. Também sou nova, tenho pouco mais de três anos de mandato. Meu vice, o Carlos Sampietro, é um empresário da cidade, que nunca teve mandato político. Ele veio somar com coragem, porque expor uma empresa num meio de politicagem como temos é um ato de coragem, de amor pela cidade e que vai me ajudar muito na geração de emprego. Com relação aos vereadores, com exceção do Evandro Folieni, que é um vereador muito atuante, os outros nomes são novos. Estamos mostrando um grupo novo realmente, sem máscaras, com visitas à cidade para entregar nosso plano de governo. Decidi continuar por amor a Bariri, por amor às pessoas que aqui vivem, por respeito às pessoas e por consideração aos votos que tive como vereadora (quase 500) e depois como vice-prefeita. Devo à população um algo a mais. Já fiz bastante pela cidade, como o Poupatempo, o Castramóvel, a carreta da mamografia, projeto para cuidadores das escolas em relação a primeiros socorros, projeto de auxílio aos óculos, emendas para três ambulâncias, uma van, enfim, os números são expressivos, apesar de muita gente querer implantar para a população que isso não aconteceu. Fiz meu papel dentro da limitação da atribuição que tive como vereadora e como vice-prefeita. Sei que posso fazer mais por Bariri e garanto que vou entregar uma cidade diferente daqui a quatro anos e mostrar para a cidade que é possível fazer uma política honesta, transparente, comprometida com as pessoas e com a cidade. Não tem varinha mágica e nem fórmula mágica. Existe um ponto que tem de ser certo: o comprometimento com o trabalho e com a cidade.

 

Candeia – Você enfrenta algum tipo de barreira na política pelo fato de ser mulher?

Maria Pia – A representatividade feminina dentro da política é bem pequena. Bariri é um exemplo disso. Passei pela Câmara e agora estou no Executivo e sou a única mulher com mandato na cidade. Acho necessária a inclusão da mulher dentro da política porque existe preconceito e é um meio extremamente machista. No meu modo de ver, a mulher tem uma visão diferente sobre as coisas, tem uma sensibilidade, uma força interna muito grande, sabe mesclar e ter um olhar abrangente. As mulheres acabam tendo medo. Estava com 11 mulheres na chapa para o cargo de vereador, mas não estou com todas agora porque uma teve problema com a documentação. Havia mais mulheres, mas elas tiveram problema com o marido porque existe a questão da politicagem muito presente e isso deixa a vida muito exposta. Há que se ter muita coragem e vontade para colocar o nome à disposição num pleito. Somos atacadas moralmente, somos tidas como fracas, como pessoas que não têm pulso para enfrentar situações e isso não é verdade. A mulher é muito forte, passamos pelo parto, enfrentamos o desafio de cuidar de uma casa, dos filhos e do marido, trabalhamos fora, enfim, nossa jornada é tripla. É necessário que a mulher tenha empoderamento e encare os desafios na política e em todos os setores. Temos capacidade técnica e moral de estar no mesmo lugar que o homem está e fazer nossa parte com maestria.

 

Candeia – É possível à prefeitura incentivar a geração de emprego ou essa ação depende mais de as empresas tomarem a iniciativa?

Maria Pia – Acompanho os empresários da cidade desde que comecei a atuar como vereadora. Observo na maioria dos casos que existe um descaso muito grande por parte do poder público em relação aos empresários. As queixas são sempre as mesmas, em relação à falta de interesse no atendimento, empresários que chegam a ficar 3h ou 4h para esperar o atendimento pelo prefeito. Há uma falta de comprometimento na prefeitura em relação a áreas, com programa de venda de forma facilitada. Isso em relação aos empresários instalados na cidade. O cenário que encontrei na atual campanha é o mesmo de dois anos e meio atrás. Os que estavam espremidos e querendo espaço para crescer continuam na mesma situação. O pólo industrial está abandonado. Há também empresas novas interessadas em vir para o município, mas por algum motivo isso não aconteceu. Estamos competindo com cidades vizinhas, que estão alicerçadas para que a geração de emprego realmente ocorra. Falta uma lei de incentivo fiscal que seja eficiente, mas o que mais pesa é a questão do espaço para ampliação dos negócios. Ao longo desse período em que estive na prefeitura não vi nenhum tipo de investimento nesse sentido. Entrou dinheiro do Pré-Sal, há arrecadação na prefeitura, mas não se investe em áreas para expansão das empresas. Se não oferecermos atrativos, as empresas vão para outros lugares. Para que as empresas venham para o município é preciso que haja outros pontos de interesse, com a saúde funcionando, educação de qualidade, infraestrutura, limpeza urbana. Bariri é uma cidade boa, de povo bom, que tem estrutura, só que está faltando foco, cuidado e gestão. Enquanto não houver alguém com interesse real na cidade, as coisas irão continuar da forma como estão ou até mesmo piorarem. Estamos passando por uma pandemia, com crise mundial, com muita gente que quebrou e outros estão desempregados.

 

Candeia – A grande questão da Saúde hoje é a situação da Santa Casa de Bariri. Quando foi decretada a intervenção do hospital você estava alinhada com o prefeito. Você chegou a participar dessa decisão? Sendo eleita, qual sua proposta para a Santa Casa?

Maria Pia – A Santa Casa realmente é o calcanhar de Aquiles do município. A Saúde é algo muito complexo. Passamos desde as unidades básicas de saúde até a unidade hospitalar. A questão não é só arrumar a Santa Casa. Nas unidades básicas de saúde há falta de enfermeiros, de fisoterapeutas, a parte odontológica não tem atendimento noturno. Quem sofre com isso é quem trabalha. Houve mutirão para próteses dentárias, mas houve paralisação. Estamos há quase dois anos sem fazer próteses dentárias. Quando falamos de Saúde falamos de sistema Cross, que funciona nos níveis ambulatorial e hospitalar. Há filas no município de 500, 800 pacientes e muitas vezes o sistema abre para o município. O sistema Cross é uma regulagem feita pelo governo estadual com oferta de vagas e somos reféns desse sistema. O problema é que não conseguimos dar continuidade ao tratamento médico. Por conta da pandemia, os hospitais de referência reduziram em até 40% os atendimentos. A demanda reprimida se faz muito maior. A única solução é estruturar a rede básica de saúde, com contratação de médicos para tentar desafogar a Cross. Não podemos fazer concurso público no município porque o limite prudencial com folha de pagamento foi atingido. Seja em qualquer setor que precisa da retaguarda de funcionários, a prefeitura terá de passar por uma reforma administrativa severa e profunda, senão nada vai acontecer.

 

Candeia – Essa reforma obviamente não pode ser feita com a demissão de funcionários…

Maria Pia – É possível fazer a reforma com a redução de horas extras. Hoje a prefeitura chega a pagar R$ 200 mil de horas extras por mês, e a gente sabe que nem sempre elas são cumpridas. É possível fazer mudanças em diretorias. Há projetos protocolados que foram apresentados à atual administração para que isso fosse feito como recomendação. São ações que estamos estudando junto a um grupo técnico, com economia de pelo menos R$ 4 milhões por ano. É necessário esse olhar de gestão. É preciso parar com os apadrinhamentos, com os toma-lá-dá-cá, com as trocas de favores e trabalhar sério. A prefeitura tem de ser tratada como uma empresa. Se não for dessa forma, nem a Saúde, nem a Educação e nem nada vão funcionar. Quando falamos em Saúde é preciso pensarmos na expansão das Estratégias Saúde da Família (ESFs) porque o foco é a prevenção. Quando falamos disso tratamos da diminuição de custos dos recursos públicos de investimentos na Saúde porque é mais barato prevenir do que remediar. Outro problema é a falta constante de medicamentos. Há falta porque existe descompasso no planejamento de licitação para compra do medicamento. Há também compra em quantidade menor do que o município precisa.

 

Candeia – Para retomar o assunto, qual a proposta de governo para a Santa Casa?

Maria Pia – Estava na prefeitura quando houve a intervenção na Santa Casa, mas soube do assunto quando estava saindo para ir almoçar. O prefeito entrou e disse: “onde você vai?” Falei: “vou embora”. Ele falou: “não, vamos fazer a intervenção”. Perguntei: “que intervenção?” Perguntou se eu não estava sabendo e eu disse que não. A parte administrativa sempre correu bem paralelo à minha sala. Fiquei muito direcionada ao atendimento ao público, mas o que envolvia decisões administrativas maiores não passava por mim. A intervenção se fazia necessária. Se foi feita ou não da forma correta, ela tinha de ser feita. A essa informação tive na Fehosp (Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo) numa reunião com o presidente da entidade. A informação é que a intervenção era necessária não só em Bariri, como em outros municípios. Mas também que era necessário que o município retirasse essa intervenção o quanto antes porque isso traria ônus à prefeitura, co-responsável pelos processos trabalhistas que recaem sobre o hospital. Quem chegar lá em janeiro e disser que a intervenção está retirada, fecha a Santa Casa. Primeiro, é preciso tomar conhecimento profundo de como estão as contas da Santa Casa. Foi feita uma auditoria e não se chegou à conclusão alguma. Não coloco em dúvida a boa vontade dos que estiveram à frente do hospital até agora. Todos os que estão lá estão com boa vontade e com amor, mas, no meu entendimento, é pouco. É necessário que se tenha uma equipe de gestão realmente hospitalar. O prefeito chegou a me convidar para assumir a intervenção da Santa Casa. Fui muito clara em dizer que não tenho condições técnicas para ser interventora de uma Santa Casa porque não sou administradora hospitalar. O hospital tem déficit mensal de mais de R$ 200 mil e isso é cumulativo. Por mais que haja emendas, isso não é a saída. A saída é aumentar a receita para equilibrar com a despesa. No começo do ano fui visitar uma equipe que administra 80 hospitais e fiquei com eles por três dias. Pude aprender algumas ideias que podem ser aplicadas aqui em Bariri. É preciso retaguarda da prefeitura e equipe de gestão hospitalar. Se isso acontecer, retiramos a intervenção. Mas é preciso um ano para que se consiga equacionar a situação e a Santa Casa conseguir caminhar com as próprias pernas, não dependendo apenas do SUS e dos repasses da prefeitura. Com o que aprendi junto à equipe que administra os hospitais, é possível ter uma terceira fonte de renda para equacionar essa situação. Isso não é promessa, é proposta e compromisso pautados num estudo que pude averiguar pessoalmente.

 

Candeia – Por causa da pandemia da Covid-19, como recuperar o ano de 2020 na Educação?

Maria Pia – Isso é tão real que estive na casa de uma coletora de recicláveis. Ela disse que instalou antena para os filhos terem acesso à internet, mas tivemos de deixar de comprar um pouco de comida. Há famílias com oito crianças que usam um celular. No caso da Educação é preciso uma força conjunta entre os governos municipal, estadual e federal para que possamos levantar possibilidades de recuperar esse tempo perdido. Crianças sem acesso à internet perderam o ano.

 

Candeia – Suas considerações finais.

Maria Pia – Em relação ao Elefante Verde (Hospital São José), nossa proposta é de união de forças com 13 cidades da região para buscar junto ao governo estadual a instalação de um AME (Ambulatório Médico de Especialidades) para Bariri. Essa é a saída mais viável para aquele prédio. Hoje os encaminhamentos de Bariri são feitos para Botucatu. Como considerações finais, deixo aqui que as pessoas realmente ouçam as propostas, ver qual candidato vai ao encontro do que você sonha para Bariri e coloco como compromisso com cada um de vocês que meu trabalho, minha vontade e minha intenção é entregar uma Bariri diferente para vocês, para os filhos de vocês daqui quatro anos. Uma Bariri com desenvolvimento, com emprego, com saúde, com educação, com dignidade, com autoestima. Que Bariri volte a brilhar e, como diz no Hino de Bariri, que seja essa vez a tua vez. Baririenses, acreditem nas nossas propostas, confiem no que estamos passando para vocês e, dessa forma, a retribuição será com trabalho, comprometimento e transparência. Que sejam dias de eleições tranquilos, sem as famosas fake news e que seja uma campanha limpa, até como respeito à população.