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Danieli Munhoz

“A porcentagem dos recursos vindos do municipal e federal perto dos gastos que a casa tem é pequeno, por isso precisamos muito da ajuda da comunidade para conseguir manter o bom funcionamento da casa”

Em entrevista ao Jornal Candeia, a comerciante Danieli Munhoz, 32 anos, atual presidente do Lar, Amor e Vida (Casa Abrigo de Bariri), ressalta que o local desenvolve trabalho conjunto com outros órgãos como Ministério Público, Conselho Tutelar e órgãos de segurança. “A meta é inserir a família em programas de apoio socioeducativo visando a reestruturação de hábitos e valores para fortalecer o vínculo familiar e visando a futura reintegração do acolhido com a sociedade”. Ela diz que uma das prioridades da atual diretoria é “trazer voluntários para dentro da casa, pessoas que possam trazer atividades diferenciadas e culturais para as crianças e adolescentes”. Danieli ainda comenta a importância da certificação “utilidade pública” para o LAV; dá detalhes dos serviços prestados e da dinâmica da casa para tender os atuais 16 internos; diz que o local sobrevive através de três fontes de renda: municipal, federal e receitas próprias; e comentou o recente caso da fuga de uma adolescente enfrentado pelo LAV. Ela é formada em Administração de Empresas, pela Fundação Educacional Dr. Jau Bauab, e hoje está na condução da Loja de Móveis João Luiz, que pertence à família e onde trabalha desde criança. Afirma que também desde a infância tem ligação com a então Casa Abrigo. “Por morar perto da casa, brincava com as crianças que estavam acolhidas na antiga construção do lar”. Diz que é voluntária desde 2017, foi diretora de Patrimônio e agora aceitou o convite para assumira presidência. Danieli é mãe da garotinha Helena.

Candeia – Faça um histórico de sua atuação junto ao Lar Amor e Vida (LAV)
Danieli Munhoz – Tive contato com a LAV na minha infância, por morar perto da casa. Brincava com as crianças que estavam acolhidas na antiga construção do lar. Em 2017, em uma conversa com a Lizete Pelegrino (voluntaria da LAV), demonstrei meu interesse em fazer parte e contribuir para o que fosse necessário. No ano seguinte, assumi o cargo de diretora de Patrimônio. Ao fim do mandato, ainda disposta a continuar, recebi o convite da diretoria e assumi como presidente nesse ano de 2020.

Candeia – LAV obteve a certificação de “utilidade pública”. Na prática, o que representa essa conquista? O que já ocorreu em decorrência dessa nomenclatura?
Danieli Munhoz – Tornar-se “utilidade Pública” significa que o poder publico reconhece que as instituições não tem fim lucrativo e que são prestadoras de serviços coletivos. Dessa forma, estamos aptos a requisitar recursos vindos do estado e também ganhamos o importante reconhecimento como uma instituição séria.

Candeia – São grandes os desafios de quem está à frente de uma entidade como o LAV. Qual as prioridades da nova diretoria?
Danieli Munhoz – As maiores dificuldades que enfrentamos hoje é a falta de recursos e a diferença de idade entre os abrigados, indo de bebês a adolescentes. É muito complicado depender das boas intenções da população e dos políticos, ainda mais com a crise econômica que nosso país tem enfrentado. Para isso, temos trabalhado bastante com eventos sem forçar a barra nas doações da população. A falta de programas humanitários tem feito com que as crianças fiquem entediadas e acabam tentando também a fuga. Uma de nossas prioridades é também trazer voluntários para dentro da casa, pessoas que possam trazer atividades diferenciadas e culturais para as crianças e adolescentes.

Candeia – Quantas crianças/adolescentes o local atende atualmente? Quais os serviços prestados pela instituição e as equipes (voluntários e profissionais) disponíveis para isso?
Danieli Munhoz – Atualmente a casa atende 16 crianças e adolescentes, de 0 a 18 anos de idade.
A LAV é composta por uma diretoria executiva, uma coordenação responsável pela administração, sendo uma assistente social, uma psicóloga e seis educadoras. O serviço prestado garante aos acolhidos a proteção total, com segurança aos direitos básicos da vida, educação, saúde, alimentação etc. A diretoria também tem o papel de conseguir parceiros da comunidade para a captação de recursos e para isso participamos de vários eventos no ano, para conseguir o bom funcionamento da casa. Nesses eventos contamos com a participação de voluntários e doadores.

Candeia – É comum equipe de voluntários reclamar da falta de renovação de seus integrantes. O LAV enfrenta essa questão? Como superá-la?
Danieli Munhoz – A cada dois anos a diretoria da LAV é renovada. Alguns membros continuam e alguns novos aderem. Com novos colaboradores, a vontade de trabalhar pela casa aumenta, com novas ideias e desafios para cumprir. Portanto, não enfrentamos essa situação.

Candeia – Quais as fontes de renda para manutenção do local e como os recursos são empregados?
Danieli Munhoz – Contamos hoje com recursos vindos de três lados: recurso municipal (FMAS), recurso federal (PAC) e recursos próprios da casa, vindo de eventos, carnês de contribuição e nosso bazar. Com os recursos, temos as despesas mensais fixas como energia, água, gás, farmácia e alimentação, e os recursos humanos, como salários das funcionárias, encargos e alimentação das mesmas. A porcentagem dos recursos vindos do municipal e federal perto dos gastos que a casa tem é pequeno, por isso precisamos muito da ajuda da comunidade para conseguir manter o bom funcionamento da casa, e, consequentemente, a qualidade de vida que as crianças e os adolescentes precisam.

Candeia – Como é a Justiça que determina o acolhimento de crianças e adolescentes pelo LAV, há necessidade de interação entre o local, o Ministério Público, o Conselho Tutelar e até órgãos de segurança. Como ocorre essa interação? Como você analisa esse trabalho em Bariri?
Danieli Munhoz – A interação ocorre quase que diariamente, via relatório, sempre que necessário, reuniões quinzenais/mensais, dependendo da rede de garantia de direitos. Assim participam, CRAS, CREAS, Conselho Tutelar e técnicas do judiciário. A cada seis meses tem a audiência concentrada, onde todos esses atores da rede de garantia de direito vão para o fórum discutir com o promotor e o juiz quais serão os planos de atendimento para cada criança. Paralelo a esse trabalho em rede, a equipe técnica realiza contato com a família, detectando a real situação existente no meio familiar. Inicia-se então um trabalho conjunto com os citados, inserindo a família em programas de apoio socioeducativo visando a reestruturação de hábitos e valores para fortalecer o vínculo familiar, visando a futura reintegração do acolhido com a sociedade.

Candeia – Na semana que passou, o LAV enfrentou caso de fuga/desaparecimento de adolescente atendida pela instituição. É comum essa situação? Qual a forma eficaz de se proceder em casos como este?
Danieli Munhoz – Essa é uma situação muito comum a todas as instituições de acolhimento, pois as crianças e adolescentes, muitas vezes, não enxergam estar ali como estar sendo protegido. A visão deles sobre “estar lá fora” é diferente. Dentro da casa eles se sentem encarcerados e toda vez que esse sentimento aflora a fuga passa a ser possível. Não temos como impedir de forma diferente a não ser através da conscientização. No caso de fuga, a equipe da LAV faz uma busca, pois geralmente eles vão atrás de seus familiares. Abrimos um Boletim de Ocorrência pedindo ajuda da polícia militar e também comunicamos o conselho tutelar. Ao mesmo tempo, via relatório, informamos ao poder judiciário, que é quem necessita estar sabendo de tudo que acontece com cada criança e adolescente que está acolhido.