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Palavra Aberta: Uma Semana para estar junto das feridas de Jesus e deixar ser curado de nossas feridas

30 mar, 2021

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Crucificação – Masaccio- C.1426 – Divulgação

Terça-feira Santa

Estar celebrando esta Semana Santa em meio a tantas situações de dor e tristeza, consequência da pandemia do CoronaVirus, chama-nos a uma reflexão importante: devemos olhar para o Crucifixo e contemplar a dor do Cristo crucificado. Uma dor que ultrapassa as nossas dores.  Na significância da cruz de Cristo enche-se de significado nossas dores e cruzes, abrir nos ao mistério que deve estar envolta toda nossa vida. A entrada de Jesus em Jerusalém (Marcos 14,1-15,47) não é apenas um acontecimento histórico, mas uma parábola em ação. Mais: uma armadilha de amor para que a humanidade o acolha, para que eu o acolha.

Deus corteja a humanidade (a fé é a minha resposta ao cortejamento de Deus): vem como um rei mendicante, tão pobre que nem sequer possui o mais pobre dos animais de carga. Um Poderoso humilde, que não se impõe, antes propõe-se; como um amante desarmado.

Bendito Aquele que vem. É extraordinário poder dizer: Deus vem. Nesta região, por estas estradas, na minha casa que sabe a pão e abraços, Deus continua a vir, viandante dos milénios e dos corações. Aproxima-se, está à porta.

A Semana Santa desdobra, um a um, os dias do nosso destino; vêm ao nosso encontro, lentamente, cada qual generoso de sinais, de símbolos, de luz. Nesta semana, o ritmo do ano litúrgico torna-se mais vagaroso, podemos seguir Jesus dia após dia, quase hora após hora.

A coisa mais santa que podemos fazer é estar com Ele: “Homens e mulheres vão a Deus no seu sofrimento, choram por ajuda, pedem pão e conforto. Assim fazem todos, todos. Os cristãos, por sua vez, estão próximos a Deus no seu sofrimento” (Bonhoeffer).

Os cristãos estão próximos de um Deus que na cruz já não é “o todo-poderoso” dos nossos desejos infantis, o salva-vidas dos nossos naufrágios, mas é o Todo-abraçante, o Todo-amante que naufraga na tempestade perfeita do amor por nós.

São dias para estar próximo de Deus no seu sofrimento: a paixão de Cristo continua a consumar-se, em direto, nas infinitas cruzes do mundo, onde nós podemos estar junto aos crucificados da História, deixar-nos ferir pelas suas feridas, experimentar a dor pela dor da terra, de Deus, do ser humano, padecer e levar conforto.

A cruz desorienta, mas se persisto a ficar junto a ela, como as mulheres, o olhá-la como o centurião, perito em morte, decerto não compreenderei tudo, mas uma coisa sim: que ali, naquela morte, está o primeiro gemido de um mundo novo.

O que viu o centurião para pronunciar, ele que era pagão, o primeiro acabado ato de fé cristão, “era o Filho de Deus”? Viu um Deus que ama ao ponto de morrer.

A fé cristã apoia-se na coisa mais bela do mundo: um ato de amor perfeito. Viu a subversão do mundo; Deus que dá a vida inclusive a quem lhe dá a morte; Aquele para quem o poder é servir em vez de se servir; vencer a violência não com mais violência, mas tomando-a sobre si.

A cruz é a imagem mais pura, mais alta, mais bela que Deus deu de si mesmo. São os dias que o revelam: “Para saber quem é Deus, só tenho de me ajoelhar aos pés da Cruz” (Karl Rahner).

Que nestes dias de semana santa contemplemos o crucificado e meditemos as crucifixões que são presentes em nossa vida, pois não se chega a ressurreição sem passar pela crucifixão. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na páscoa de 2019, nos recordou: “A história da paixão que se seguiu deu um nome e um rosto a este misterioso homem das dores, desprezado e rejeitado pelos homens: o nome e o rosto de Jesus de Nazaré. Hoje queremos contemplar o Crucificado sob este mesmo aspecto: como protótipo e representante de todos os rejeitados, deserdados e os ‘descartados’ da terra, aqueles diante dos quais se vira o rosto para outro lugar para não os ver.”

A grande verdade, que nos envolve pela fé, é que aquela morte redimiu o mundo do pecado, levou o amor de Deus ao ponto mais distante e mais obscuro para o qual a humanidade se havia colocado na fuga d’Ele, isto é, na morte-pecado. Este amor é uma livre concessão: poderia não existir; é hesed, graça e misericórdia. O pecado do homem não muda a natureza deste amor, mas provoca nele um salto de qualidade: da misericórdia como dom se passa à misericórdia como perdão.

A urgência decorrente de tudo isto é evangelizar: “O amor de Cristo nos impele, ao pensarmos que um só morreu por todos”’ (II Cor 5,14). Impele a evangelizar! Vamos anunciar ao mundo a boa notícia de que “não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus, porque a lei do Espírito que dá vida em Cristo Jesus nos libertou da lei do pecado e da morte” (Rm 8, 1-2).

Que nos preparemos para esta Páscoa, para esse Pesah, para essa passagem… Assim como o povo de Israel passou pelo deserto e entrou na Terra prometida, passemos pelo coração de Cristo Jesus, rasgado no alto da cruz, abrindo para nós as portas de uma casa amorosa que é sua própria vida, e vivamos um tempo novo de Graça e Paz.

 

Pe. Marcelo Aparecido de Souza

Reitor do Seminário São João Paulo II – São Carlos – SP

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