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*As Mães do Deserto foram conhecidas como ammas (mães espirituais), comparável aos Padres do Deserto (abbas), devido ao respeito que eles ganharam como professores e diretores espirituais. Uma das mais bem conhecidas Mães do Deserto foi amma Sinclética de Alexandria, que teve 22 provérbios atribuídos a ela nos Provérbios dos Padres do Deserto. De acordo com relatos escritos, amma Sinclética nascida por volta de 270, dado que dela é dito que terá vivido até aos 80 cerca do ano 350, filha de ricos habitantes de Alexandria, foi bem educada, incluindo um estudo inicial dos escritos do Padre do Deserto Evágrio. Após a morte de seus pais, ela vendeu tudo o que tinha e deu o dinheiro aos pobres. Mudando-se para fora da cidade com sua irmã cega, ela viveu como eremita entre as tumbas fora de Alexandria. Gradualmente uma comunidade de mulheres ascetas cresceu em torno dela, que ela serviu como a mãe espiritual. Mesmo que ela fosse uma asceta e eremita, Sinclética ensinou a moderação, e que o ascetismo não era um fim em si mesmo. In. Chryssavgis, John (2008). In the Heart of the Desert: Revised edition: The Spirituality of the Desert Fathers and Mothers (Treasures of the World’s Religions). [S.l.]: World Wisdom. ISBN 1-933316-56-X

 

Segunda-Feira Santa

Estamos vivendo esta semana o tempo mais nobre e mais rico da espiritualidade cristã. Semana Santa é um grande retiro que a Igreja nos oferece para pensarmos e repensarmos nossa estrada de fé. Para esta semana, durante quarenta dias, nos esforçamos para bem viver este momento. Estamos nos três últimos dias da quaresma, tempo de oração, jejum e caridade. Creio que cabe uma pequena reflexão avaliativa do caminho que fizemos. Amma Sinclética* disse: “Para aqueles que se aproximam de Deus, no início há luta e grande fadiga, mas depois alegria indizível”.

Se há um tempo para a aproximação a Deus, é a Quaresma. Por vezes, porém, vemo-la mais como um tempo algo triste, em que padecemos a penitência, mais do que a encarar como uma oportunidade de voltar a ter a nossa vida na mão, dirigindo-a para o único Ponto que a pode iluminar, torná-la visível e dar-lhe um sentido.

Se, por exemplo, olharmos só para as restrições deste período histórico que estamos vivendo, apenas emergem a fadiga e o desespero, mas se o virmos como oportunidade a viver, as coisas mudam.

Tudo, ao início, é “luta e fadiga”, lágrimas e provações, também e sobretudo quando nos “aproximamos de Deus”, mas se perseverarmos no caminho, tudo adquire um valor novo, e a fadiga transforma-se em “alegria indizível”.

A consciência do nosso pecado, o desejo de ressurgir, o erguer o olhar e não ver um Juiz inflexível, mas um Pai misericordioso, transformam a nossa existência. Porque tudo está destinado à alegria, e já aqui, neste nosso caminhar incerto da vida.

“Aproximar-se de Deus” requer renúncia, mudança de perspectivas, adesão a valores que parecem atualmente desusados. O jejum, a oração, a ascese – de que vivia esta monja do século V – não nos reprimem, mas dilatam-nos. Não nos debilitam, mas curam-nos. Não nos oprimem, mas libertam-nos.

Uma liberdade que não é fazer e dizer tudo aquilo que queremos, mas é despojar-se de tudo para abrir-se aos outros e abandonar-se ao Outro. Para se reencontrar verdadeiramente, no Amor. Numa alegria que não é dada para se ficar com ela, mas para deixar ir. Que não é dada pelo possuir, mas pelo renunciar.

Quem se apega às coisas, torna-se aprisionado por elas. “Se ganhamos muito, desejamos mais”, diz Sinclética, e quando não se pode ter o que se espera, desespera-se. Mas quem é livre das coisas e de si mesmo, reencontra-se nos outros e, sobretudo, “aproxima-se de Deus” e reencontra-se nele, única fonte de alegria indizível.

Que nos preparemos com um coração, verdadeiramente entregue, para o Tríduo Pascal. Ainda que neste ano, mais uma vez, não possamos participar em nossas Igrejas, não deixemos de rezar, de mergulhar na espiritualidade deste tempo. Guardemos no coração os ensinamentos de São Francisco de Sales: “Senhor, ensinai-me a discernir as coisas que posso mudar, daquelas que não posso mudar. Dá-me a coragem de mudar as primeiras e a força de suportar as segundas”.

Fiquem bem, rezemos juntos e nos preparemos para o grande encontro com o Mistério de nossa fé: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

Abençoada Semana Santa a todos

Pe. Marcelo Aparecido de Souza

Reitor do Seminário São João Paulo II