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Para Ticianelli, ingresso na TWAS é reconhecimento ao trabalho científico

27 dez, 2019

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“Existem centenas de outros profissionais merecedores do prêmio e então me sinto imensamente honrado em representá-los nesta conquista”.

Em entrevista ao Candeia, o professor e cientista baririense, Edson Antônio Ticianelli, 67 anos, comentou seu ingresso na Academia Mundial de Ciências, conhecida pela sigla TWAS – The World Academy of Sciences. Para ele, a indicação representa um prêmio de reconhecimento ao seu trabalho científico e a repercussão que tem conseguido na comunidade científica internacional. Ressalta que “o julgamento das candidaturas é feito em função dos indicadores de produtividade em pesquisas que incluem, quantidade, qualidade e repercussão internacional dos artigos científicos publicados; a importância dos achados científicos realizados; o engajamento institucional no desenvolvimento das atividades acadêmicas ligadas à orientação de alunos de pós-graduação, a supervisão de pesquisadores de pós-doutorado e as atividades de gestão acadêmica”. Na entrevista, Ticianelli relata sobre a infância e adolescência em Bariri, a formação escolar em escolas públicas locais e sua trajetória acadêmica, junto ao Instituto de Física e Química de São Carlos (IQSC), da Universidade de São Paulo (USP), com mestrado, doutorado e pós-doutorado no exterior (EUA). De forma didática, ele comenta como o estudo e pesquisa sobre processos físico-químicos de geração de energia elétrica a partir de energia química, na área de Eletroquímica, o qualificaram para o ingresso na TWAS. O professor ainda comenta sua ligação familiar e afetiva com a cidade de Bariri.

Candeia – Relate sobre infância e adolescência em Bariri
Edson Ticianelli – Nasci na zona rural de Bariri no Bairro Viuval, onde morei até os 8 anos de idade, cercado de muitos primos e quatro irmãos pequenos que eram meus únicos amigos, quando por volta de 1960 minha família mudou-se para a cidade. Aos poucos meus irmãos e eu fomos nos integrando à nova vida, fazendo novos amigos e aprendendo a conviver em uma sociedade que para mim era mais complexa que a da área rural. Assim, em pouco tempo tudo foi se resolvendo e então muitos novos melhores-amigos foram feitos. Memoráveis partidas de futebol foram disputadas com estes amigos no campinho que formamos no extenso quintal gramado de minha casa situada na Av. 15 de Novembro.

Candeia – Em que escolas o senhor estudou em Bariri? Quais as lembranças desse período?
Edson Ticianelli – Iniciei a minha educação cursando o primeiro ano do primário na escola municipal rural do Bairro Viuval, mas logo continuei os estudos no Grupo Escolar Prof. Euclydes Moreira da Silva. Depois cursei o Ginásio e parte do Colegial no CENE-Colégio e Escola Normal Estadual de Bariri. Apesar de, aparentemente, com mais qualidade que na atualidade, o ensino médio público naquela época também não era suficientemente qualificado para garantir acesso à universidade pública. Nesta época formei amigos inesquecíveis e aprendi com nossas conversas e com os ensinamentos e exemplos dos professores a planejar o futuro. Isto me levou, em janeiro de 1972 logo após o término do Colegial, a mudar para São Paulo onde trabalhei (de dia) e fiz o cursinho (à noite) para me preparar e tentar o ingresso numa universidade na área de Ciências Exatas. Química para a qual fui aprovado na USP-São Carlos era uma opção, mas não a única.

Candeia – Comente sobre trajetória acadêmica.
Edson Ticianelli – Iniciei minha graduação em 1973 formando parte da primeira turma do curso de Bacharelado em Química, no antigo Instituto de Física e Química de São Carlos, Universidade de São Paulo. Nesta mesma instituição cursei o mestrado, com início em 1977, e o doutorado com início em 1980, ambos no programa de pós-graduação em Físico-Química. Os temas da dissertação de Mestrado e a Tese de doutorado foram relacionados com a área de pesquisa de Eletroquímica Orgânica. Para descaracterizar um pouco o grau de endogenia que resultou de haver concluído todos os programas na mesma instituição, imediatamente após o doutorado, em 1986, fui ao exterior (Los Alamos National Laboratory, New Mexico, e Texas A&M University, Texas, EUA) para realizar um programa de pós-doutorado durante 2 anos em uma área de pesquisa distinta daquelas do mestrado e do doutorado. No final de 1992, já de volta ao Brasil, fiz o concurso de livre-docência sendo a temática da tese apresentada relacionada com duas áreas de pesquisa iniciadas nestes estágios de pós-doutorado, que haviam sido consolidadas nos anos que se seguiram. No final da década de 1990, fiz novo estágio de pós-doutorado no exterior, por mais 1 ano, agora no BrookhavenNationalLaboratory, em Long-Island, estado de New York, EUA.

Candeia – O que despertou seu interesse para a ciência e pesquisa?
Edson Ticianelli – O interesse em ciências exatas aconteceu naturalmente ao longo do colegial. O interesse pela realização de pesquisa científica se manifestou ao longo do curso de graduação, quando tive oportunidade de obter duas bolsas sequenciais de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os resultados da pesquisa realizada (sobre corrosão de aço), a leitura da literatura científica e as discussões com o meu orientador (professor Luis Alberto Avaca), foram fundamentais na decisão que tomei na época em ingressar na pós-graduação na área de Eletroquímica, logo após o término da graduação. Esta era condição imprescindível para o ingresso na carreira acadêmica, que havia se tornado primeira opção para minha futura atividade profissional.

Candeia – Sua atuação acadêmica esteve sempre ligada à USP?
Edson Ticianelli – De fato, ingressei como proferssor na USP em outubro de 1977 (quando ainda fazia mestrado) e fui progredindo na carreira docente, passando de professor auxiliar de ensino para professor assintente em 1980, professor assintente doutor em 1985, professor associado em 1993 e finalmente professor titular em 2003. Fui chefe do Departamento de Físico-Química do Instituto de Química de São Carlos (que foi criado em 1994, por desemembramento do Instituto de Física e Química de São Carlos) por quatro anos e diretor deste instituto de 2006 a 2010. Autorei, em cooperação com colegas do Brasil e da Argentina, dois livros didáticos na área de Eletroquímica. Atualmente, meu elenco de publicações de resultados de pesquisas científicas inclui duzentos e vinte artigos em periódicos, listados em várias plataformas de indexação; a isto acrescentam-se dez capítulos em livros e mais de quatrocentos e cinquenta resumos/trabalhos em livros coletivos, anais de congressos e outros meios de divulgação científica. Ministrei várias conferências e palestras convidadas em reuniões científicas nacionais/internacionais. Finalmente, atuei como orientador de mais de 20 mestrados e 30 doutorados stricto senso nos programas de pós-graduação do Instituto de Química de São Carlos (USP).

Candeia – Como ocorreu o ingresso na TWAS? Quais os requisitos?
Edson Ticianelli – O ingresso na TWAS ocorre todos os anos de forma similar à das Academias de Ciência do Estado de São Paulo e Brasileira. Nestas, alguém da correspondente comunidade faz a indicação de candidato, apresentando os motivos científicos e profissionais que justifiquem a proposta. Numa etapa seguinte, a comunidade em geral analisa estas candidaturas e então votam nos candidatos preferidos nas diferentes áreas da ciência. O resultado desta votação é analisado em assembleia da entidade que faz a escolha definitiva dos novos membros. Para a TWAS, a única diferença é que a indicação das candidaturas é realizada por uma espécie de Comitê de Busca criado pela Academia Brasileira de Ciências. O julgamento das candidaturas é feito em função dos indicadores de produtividade em pesquisas que incluem, quantidade, qualidade e repercussão internacional dos artigos científicos publicados; a importância dos achados científicos realizados; o engajamento institucional no desenvolvimento das atividades acadêmicas ligadas à orientação de alunos de pós-graduação, a supervisão de pesquisadores de pós-doutorado e as atividades de gestão acadêmica.

Candeia – Comente de forma didática as pesquisas que o qualificaram para o ingresso na academia.
Edson Ticianelli – Minha área de atuação em Eletroquímica é relacionada aos processos físico-químicos de geração de energia elétrica a partir de energia química, que ocorrem, por exemplo, em pilhas e baterias, para citar os dispositivos mais conhecidos. De fato, nas minhas pesquisas, os dispositivos de interesse são as chamadas células a combustível, nas quais os reagentes químicos necessários ao funcionamento são armazenados fora do sistema, contrariamente às pilhas que têm os reagentes contidos no seu interior. Nas células a combustível, o reagente de maior interesse é o gás hidrogênio (o combustível) que é armazenado externamente em um tanque, sendo somente suprido ao sistema na medida em que a geração de energia elétrica é requerida; outro reagente necessário é o gás oxigênio contido na atmosfera. A combustão eletroquímica destes reagentes que leva a produção de energia elétrica é silenciosa e leva à formação de água como único produto. Maiores detalhes sobre estes dispositivos podem ser obtidos em entrevista sobre a Energia por Hidrogênio dada recentemente na TV Futura no link https://www.youtube.com/watch?v=lfciQQx-MsU.

Candeia – Qual a importância de sua conquista?
Edson Ticianelli – Os membros desta academia são em geral ligados a países em desenvolvimento. Fiquei muito honrado com a minha indicação, pois ela representa um prêmio de reconhecimento ao meu trabalho científico e a repercussão que tem conseguido na comunidade científica internacional, apesar das limitações técnicas e financeiras que cercam estas atividades em um país como o Brasil. Existem centenas de outros profissionais merecedores do prêmio e então me sinto imensamente honrado em representá-los nesta conquista.

Candeia – Como analisa a situação da ciência e pesquisa no governo Bolsonaro?
Edson Ticianelli – Nestes mais de 40 anos de envolvimento em atividades de ciência e pesquisa no Brasil, venho observando períodos intermitente de altos e baixos. No início do governo Bolsonaro entramos num período de muita expectativa, porém estamos esperando que logo haverá retorno do ambiente de valorização das atividades de pesquisa e desenvolvimento, tão necessários ao nosso país.

Candeia – Qual sua ligação atual com Bariri?
Edson Ticianelli – Tive doze tios e tias das famílias Moretto e Ticianelli, todos nascidos em Bariri. Destes, apenas dois continuam vivos, Lourdes Ticianelli Benatti residente em Bariri e Lauro Moretto que reside em São Paulo; tenho várias dezenas de primos de 1º grau, muitos deles residentes na cidade; tenho três irmãos: Celso e Paulo, que residem em São Paulo e João que reside em Bariri. Sou casado com Maria Cecilia Buchaim Ticianelli, que teve também todos os membro das famílias Bolsoni e Buchaim nascidos em Bariri; temos um filho Marcos que reside em Itu e uma filha Raquel que está em São Paulo; finalmente temos, no momento, um neto Gustavo, filho de Marcos e Michele, que completa minha linha de familiares diretos. Tenho muito orgulho de minha origem como baririense, que é bastante conhecida pela comunidade do Instituto de Química de São Carlos.

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