
Adriana Stela Barbosa Fontes – “Se isso (diálogo) ocorresse com médicos que atuam na área pública junto com a administração municipal, acho que conseguiríamos coisas melhores”
O Dia do Médico foi celebrado na segunda-feira (18). Por esse motivo, o Candeia publica nesta edição entrevista com a médica Adriana Stela Barbosa Fontes, que atua na unidade de Saúde da Família da Vila Americana, na Santa Casa de Bariri e em clínica particular. Dois assuntos foram tratados em especial na entrevista: prevenção; e Covid-19. Para Adriana Fontes, é preciso que haja maior diálogo entre os médicos da rede pública e a Diretoria Municipal de Saúde. Quanto à prevenção, ressalta que na unidade onde trabalha a procura pela população é satisfatória, no entanto, isso não ocorre em todo o município. Sobre a Covid-19, Adriana Fontes esteve na linha de frente no enfrentamento da pandemia. Diz que o vírus se comporta de forma diferente em cada organismo, mas que normalmente pessoas sem comorbidades, com boa alimentação e que praticam atividades físicas evoluem melhor. Ela nasceu em abril de 1976 em Tangara da Serra Mato Grosso. Formou-se na Faculdade de Medicina UNIC, em Cuiabá, e fez pós-graduação em cardiologia e pós-graduação em UTI adulto. Desde 2007 trabalha em Bariri.
Candeia – Quais os pontos positivos e negativos de sua atuação como médica em Bariri?
Adriana Fontes – Sempre gostei muito de Bariri, cidade que me acolheu quando aqui cheguei, em 2007. A população é maravilhosa, acolhedora e muito gentil. Já trabalhei em vários lugares, no Mato Grosso, em Rondônia, na Bahia, mas Bariri foi a cidade que escolhi para ficar. Como a população daqui é muito acolhedora, é um lugar que a gente tem vontade de trabalhar e de crescer. O ponto negativo é que falta bastante estrutura em Bariri. Muitas coisas que peço para meus pacientes, como exames, acabam tendo de ser obtidas em outros municípios. Mas uma vantagem é que Bariri está perto de outras cidades, e isso acaba facilitando. Vejo mais pontos positivos que negativos.
Candeia – Na área da Saúde no município, que medidas a senhora considera necessárias?
Adriana Fontes – Bariri é um município precário na área da saúde. Tínhamos de investir bastante nessa área. Os médicos poderiam se reunir mais com a Diretoria Municipal de Saúde, com um diálogo maior, para podermos falar do que é necessário. Trabalho no PSF e há vários pontos que precisam ser melhorados. Passei por vários políticos, prefeitos e diretores de Saúde em Bariri e nunca tive problema com nenhum deles. Nunca me envolvi em política, mas acho que precisaria ter mais diálogo. Se isso ocorresse com médicos que atuam na área pública junto com a administração municipal, acho que conseguiríamos coisas melhores, mostrando o que está defasado para melhorar.
Candeia – A senhora atua como médica de unidade Saúde da Família. Quais os problemas mais comuns no dia a dia que poderiam ser evitados com um maior foco da pessoa na prevenção?
Adriana Fontes – Atuo no PSF 3, da Vila Americana. Lá, tentamos fazer tudo dentro das normas do PSF, com visitas domiciliares, programas, palestras. De dois anos para cá complicou um pouco por causa da pandemia. O coração do PSF são os agentes de saúde e eles têm de trazer para nós os problemas da área. Há necessidade de mais treinamento dentro dos PSFs, para os médicos, para as equipes de enfermagem e agentes de saúde. Trabalhei em PSFs em outros estados e sempre tinha isso. Precisamos incentivar a população a procurar mais os PSFs para fazer a prevenção, como hipertensão arterial, diabetes. Na minha área não tenho muitos problemas com isso, porque a população vai mesmo no PSF. Cobri outra unidade em Bariri e vi que a população não ia. Fazem agendamento e não aparecem. Isso é ruim, porque é um serviço que a prefeitura dá e muita gente não vai. PSF não é para ser procurado quando a pessoa está doente. É preciso que a unidade seja procurada para fazer a prevenção. Quando está doente, o caminho é o pronto-socorro. Nos PSFs é possível fazer exames uma vez por ano, verificar pressão arterial, diabetes, fazer acompanhamento das crianças quando nascem, das gestantes. Lógico que se chegar uma pessoa doente, ela será atendida, serviço chamado de acolhimento, mas o foco é a prevenção.
Candeia – Em relação à pandemia da Covid-19, o que destacaria na mudança de relacionamento entre médico e paciente?
Adriana Fontes – Essa pandemia pegou a gente de surpresa. Veio um vírus em que não sabíamos as consequências e o tratamento. Foi tudo muito rápido, inclusive emocionalmente, abalando todos nós, fisicamente, mentalmente. Perdemos muitos amigos, muitas pessoas jovens e idosos. Na relação médico-paciente, essa pandemia permitiu que nos aproximássemos mais. É uma doença da qual não tínhamos informações, e tínhamos de dar as notícias aos familiares e muitas vezes as notícias não eram boas. Acabamos nos humanizando mais e nos aproximando mais dos pacientes e dos familiares. Mas foi muito difícil para nós, médicos, para toda a equipe da Saúde, foi uma época que desgastou muito.
Candeia – Desde o início da pandemia até os dias atuais, quais as maiores preocupações com a Covid-19? Quem já contraiu o vírus precisa ter alguma preocupação?
Adriana Fontes – Há muita mudança em relação à característica do vírus. A Covid ainda está aí, não acabou e não vai acabar. É um vírus que se espalhou por aí e temos de tomar todos os cuidados. Hoje muitas pessoas estão imunizadas, ou pela vacina, ou por ter contraído o vírus. Para esse grupo a imunidade é maior. Quem já pegou precisa tomar cuidado porque pode pegar de novo, da mesma forma que uma gripe. A vacinação é muito importante. São importantes o uso da máscara e o afastamento entre as pessoas porque o vírus está aí. Chegará uma hora em que iremos tirar a máscara, mas deveremos continuar a lavar as mãos, não ficar abraçando e beijando e não frequentar lugares muito cheios de gente.
Candeia – Pelo fato de a doença não ter um tratamento definitivo, como os médicos atuavam e atuam para prescrever medicamentos e outros cuidados de saúde?
Adriana Fontes – Cada médico tem sua conduta. Não critico quem não trata precocemente, não critico quem usa ivermectina, hidroxicloroquina. Minha conduta é tratamento precoce, trato com ivermectina, com hidroxicloroquina se houver necessidade, não para todos os pacientes. Graças a Deus, no meu caso, com meus pacientes o tratamento funcionou. Perdi alguns pacientes, sim, há alguns com mais riscos e mesmo com o tratamento precoce evoluíam mal, mas foram muito poucos. Comparando o número de pacientes que atendi com o número de pacientes que perdi, foram poucos casos de óbitos. Os que evoluíam mal tinham algum tipo de comorbidade. Eu defendo o tratamento precoce, porque os cinco primeiros dias da doença são essenciais. O paciente tem de estar tratado e medicado para não entrar na fase inflamatória sem remédio. Há médicos que usam outras formas e dá certo também.
Candeia – Há respostas para que algumas pessoas tenham passado pela Covid-19 de forma mais tranquila e outras tenham tido problemas mais sérios, com sequelas e até óbito?
Adriana Fontes – Não tínhamos conhecimento do novo coronavírus. Pacientes obesos, sedentários e diabéticos tinham mais riscos. Pacientes que praticavam esporte e que tinham alimentação mais balanceada passaram pela Covid de forma mais tranquila. Depende muito do organismo, mas já tive pacientes jovens e sem comorbidades que foram parar na UTI e evoluíram a óbito. Em cada pessoa o vírus respondia de um jeito. Por isso, a recomendação é praticar esporte, ter uma boa alimentação, evitar o sedentarismo, quem é obeso precisa tentar perder peso, porque o vírus está aí e não vai embora.
























