
“A importância do Janeiro Branco está em abrir espaço para que o sofrimento emocional seja reconhecido, legitimado e tratado com a mesma seriedade que a saúde física” (Divulgação)
Na entrevista desta semana, a psicóloga clínica Letícia Ramos da Silva destaca a importância do Janeiro Branco como campanha de conscientização sobre saúde mental, alerta para o aumento dos transtornos de ansiedade, depressão e estresse nos últimos anos e ressalta os impactos duradouros da pandemia da Covid-19 na saúde emocional da população. Também orienta sobre sinais de alerta que indicam a necessidade de buscar ajuda psicológica, a importância do apoio familiar e social e hábitos simples que contribuem para a preservação da saúde mental. Letícia Ramos tem atuação voltada ao atendimento de adultos por meio de psicoterapias baseadas em evidências científicas. Seu trabalho tem como foco a autonomia emocional, a melhora funcional e resultados consistentes, sempre respeitando a individualidade de cada paciente. É pós-graduanda em Psicoterapias Baseadas em Evidências (TCC) e em Psicopatologia e Transtornos Mentais, além de possuir formações em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Comportamental Dialética, Terapia de Aceitação e Compromisso, Psicopatologia Clínica e em Obesidade e Emagrecimento na perspectiva da TCC. Ela atende na Clínica Cllins, nas modalidades presencial e online, e também compartilha conteúdos informativos em seu Instagram, @psico.leticiaramos.
Candeia – O que é o Janeiro Branco e qual a importância dessa campanha para a sociedade?
Letícia Ramos – O Janeiro Branco é uma campanha de conscientização sobre a saúde mental, criada em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão, em Minas Gerais. Janeiro foi escolhido por simbolizar o início de um novo ciclo, um momento em que muitas pessoas refletem sobre suas vidas, escolhas e metas para o ano. A campanha tem como principal objetivo estimular o cuidado com a saúde emocional, promover informação de qualidade, prevenir o adoecimento psicológico e reduzir o estigma em relação aos transtornos mentais. Sua importância está em abrir espaço para que o sofrimento emocional seja reconhecido, legitimado e tratado com a mesma seriedade que a saúde física, contribuindo para uma sociedade mais consciente, acolhedora e preventiva.
Candeia – Quais transtornos psicológicos têm sido mais frequentes nos últimos anos?
Letícia Ramos – Atualmente, os transtornos mais frequentes são os transtornos de ansiedade, especialmente o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), seguidos pela depressão e por quadros relacionados ao estresse, como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O Brasil apresenta índices elevados de ansiedade, acima da média mundial, com maior incidência entre mulheres. Embora a pandemia tenha intensificado esses quadros, esse aumento já vinha acontecendo antes, refletindo mudanças no estilo de vida, excesso de cobranças e dificuldades em lidar com emoções.
Candeia – A pandemia da Covid-19 deixou impactos duradouros na saúde emocional da população?
Letícia Ramos – Sim. A pandemia da Covid-19 intensificou significativamente o sofrimento emocional da população. Houve aumento de ansiedade, depressão, estresse, medo, luto e isolamento social. Muitas pessoas buscaram atendimento psicológico pela primeira vez, enquanto outras tiveram agravamento de quadros já existentes. Além disso, observamos impactos duradouros, como dificuldades para retomar a rotina, insônia persistente, medo excessivo de adoecer, queda de produtividade e isolamento prolongado. Um ponto importante foi a ampliação do acesso à psicoterapia online, autorizada pelo Conselho Federal de Psicologia, o que permitiu que mais pessoas recebessem cuidado psicológico. Estudos mostram que a psicoterapia online é eficaz para diversos transtornos, especialmente quando baseada em evidências. Apesar disso, também é importante destacar a capacidade de adaptação e resiliência das pessoas, principalmente quando contam com apoio social e acompanhamento profissional adequado.
Candeia – Quais sinais indicam que uma pessoa precisa buscar ajuda psicológica?
Letícia Ramos – Alguns sinais indicam claramente que uma pessoa precisa buscar ajuda psicológica. Entre eles estão sintomas emocionais intensos e persistentes, como tristeza profunda, ansiedade excessiva ou irritabilidade constante. Também é um alerta quando há prejuízo funcional, com dificuldade para trabalhar, estudar, cuidar da higiene, se alimentar ou dormir. O isolamento social severo, alterações significativas no sono ou no peso, uso abusivo de álcool ou outras substâncias, além de pensamentos recorrentes de desesperança ou de desvalorização da própria vida, também merecem atenção. Na prática, quando a pessoa deixa de sair de casa, perde o interesse por atividades que antes eram prazerosas e começa a negligenciar o autocuidado, isso representa um sinal claro de que precisa de ajuda profissional.
Candeia – Quando a ansiedade ou a tristeza deixam de ser consideradas “normais”?
Letícia Ramos – Ansiedade e tristeza fazem parte da experiência humana. Elas deixam de ser consideradas “normais” quando são muito intensas, frequentes ou duradouras, causam prejuízo significativo na vida pessoal, social ou profissional, impedem a pessoa de realizar atividades cotidianas e não melhoram mesmo com tentativas de autocuidado. Por exemplo: sentir ansiedade antes de uma apresentação é esperado, mas evitar todas as situações sociais por medo intenso já indica um problema que precisa de atenção.
Candeia – O que familiares e amigos devem observar no comportamento de alguém próximo?
Letícia Ramos – É preciso estar atento a mudanças importantes de comportamento, como: isolamento, irritabilidade, explosões emocionais ou apatia; negligência com higiene, alimentação ou sono; uso abusivo de álcool ou drogas; comentários frequentes de desesperança ou desejo de “sumir”; e dificuldade em manter rotina e responsabilidades. A principal orientação é acolher, escutar sem julgamentos e incentivar a busca por ajuda profissional.
Candeia – Quais hábitos simples podem ajudar a preservar a saúde mental no dia a dia?
Letícia Ramos – Manter uma rotina equilibrada de sono, alimentação e atividade física. Também é importante reservar momentos para lazer e descanso, cultivar vínculos sociais e praticar atividades que tragam prazer e sensação de realização. Outras orientações são observar sinais de estresse e respeitar os próprios limites e ter pequenas atitudes, como uma caminhada diária ou uma conversa de qualidade com alguém de confiança, já fazem diferença significativa.
Candeia – Como a sociedade pode contribuir para a promoção da saúde mental?
Letícia Ramos – A sociedade pode contribuir de diversas formas, começando pela redução do estigma em relação aos transtornos mentais. Também é fundamental promover campanhas de conscientização, como o Janeiro Branco, facilitar o acesso aos serviços de saúde mental, incentivar ambientes de trabalho e estudo mais acolhedores e oferecer escuta ativa e apoio às pessoas em sofrimento. Essas ações coletivas fortalecem a cultura do cuidado, da prevenção e do respeito à saúde mental.
























