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Luiz Fernando Masselli Turini – “A cloroquina e a hidroxicloroquina vêm sendo empregados no tratamento sem que haja comprovação científica da eficácia”

 

Dois medicamentos (cloroquina e hidroxicloroquina) passaram a ser difundidos como positivos no tratamento da Covid-19. No entanto, é preciso todo o cuidado na prescrição desses remédios. Para o farmacêutico Luiz Fernando Masselli Turini, 47 anos, proprietário da Farmácia Manifórmula, de Bariri, ainda não há comprovação científica da eficácia para o uso dos medicamentos contra a doença. Ele cita decisão da Organização Mundial de Saúde sobre a suspensão do ensaio relacionado aos produtos. Fernando Turini afirma que a automedicação preocupa bastante e que as pessoas devem sempre procurar um profissional para que a prescrição de remédios seja correta. Ele é voluntário do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo desde 2010. Atuou como delegado-adjunto em três mandatos e atualmente ocupa o cargo de delegado da Seccional Bauru do conselho 2020/2021. “Sou grato pela oportunidade de estar com profissionais que lutam e tem orgulho da profissão farmacêutica”, comenta.

 

Candeia – Qual a diferença entre cloroquina e hidroxicloroquina. Para que servem esses medicamentos?

Fernando Turini – São dois medicamentos muito parecidos, mas comercializados em formulações diferentes, sendo a hidroxicloroquina um derivado mais solúvel em água do que a cloroquina. Os benefícios clínicos são parecidos, mas os efeitos adversos não. A hidroxicloroquina é considerada um pouco mais segura, com menos efeitos colaterais, mas também apresenta riscos à saúde se utilizada indevidamente. Devido a seus efeitos benéficos, os antimaláricos têm sido amplamente utilizados também no tratamento do lupus eritematoso sistêmico, por exemplo. Uma vez estabelecido o diagnóstico, há tendência de utilizá-los de forma contínua na prática reumatológica.

 

Candeia – Qual sua opinião sobre a mudança de protocolo do Ministério da Saúde para o uso da cloroquina e hidroxicloroquina mesmo em casos leves da Covid-19?

Fernando Turini – Acredito que o farmacêutico tem um papel essencial no enfrentamento da pandemia mundial do novo coronavírus. Devemos promover o URM (Uso Racional de Medicamentos), observando os seguintes cuidados na dispensação destes medicamentos, que vêm sendo empregados no tratamento sem que haja comprovação científica da eficácia. O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), TedrosAdhanom, afirmou em coletiva de imprensa na tarde de segunda-feira, dia 25, que o uso da hidroxicloroquina está suspenso no ensaio clínico Solidariedade (Solidarity). O motivo é um estudo publicado pela revista científica The Lancet, que envolveu mais de 96 mil pessoas e mostrou que não só não há benefícios no uso desses medicamentos contra o vírus SARS-CoV-2, como há um risco aumentado de morte para os pacientes. Durante a coletiva, a organização também recomendou que o Brasil adote medidas de isolamento social mais rígidas, as quais comprovadamente auxiliaram muitos países no enfrentamento da Covid-19.

 

Candeia – Quais os possíveis efeitos colaterais desses dois medicamentos e os riscos para a população?

Fernando Turini – Os efeitos de toxicidade variam de acordo com o organismo de cada pessoa. Estes medicamentos podem causar problemas como distúrbios de visão associados a lesões na retina com o uso a longo prazo, mas podem causar também irritação gastrointestinal, alterações cardiovasculares (arritmias, principalmente), neurológicas, cefaleia e fadiga. Quem tem psoríase ou porfiria pode ter um episódio agudo da doença, prurido, queda de cabelo e exantema cutâneo. Estas drogas são eliminadas lentamente pelo rim (3 a 6 meses), mas cerca de 15% a 30% da cloroquina é oxidada no fígado em metabólitos inativos e, então, eliminadas. Há relato de achados de traços de cloroquina no plasma, eritrócitos e urina em indivíduos com retinopatia, após cinco anos de interrupção da droga. Podem se acumular no fígado, baço, pulmões, rins, olhos, pele, glândulas adrenais e pituitária e quando utilizadas por mulheres grávidas atravessam a placenta e estão presentes no leite materno em menos de 1% da dose oral diária administrada. O uso destas substâncias em doses elevadas pode causar até mesmo a morte, sendo as doses terapêuticas muito próximas das doses tóxicas destes medicamentos. Por esta razão, fica ainda mais clara a importância da prescrição médica para o uso, bem como o acompanhamento do farmacêutico para que o medicamento seja utilizado de forma adequada e o paciente possa ser orientado sobre as condutas a tomar mediante qualquer problema que possa aparecer.

 

Candeia – Devido à pandemia da Covid-19, o senhor tem observado aumento da automedicação? Quais os riscos da automedicação para essa e outras doenças?

Fernando Turini – Com o aumento dos casos em todo o Brasil e mediante o desconhecimento sobre qual seria uma ferramenta de cura ou prevenção (além do distanciamento e uso de máscaras), as especulações sobre produtos como vitaminas, minerais e suplementos em geral fazem com que a população busque nas farmácias algumas soluções – nenhuma com evidência científica ou qualquer embasamento técnico efetivo. Em meio a essa, que é uma das maiores pandemias da história, os conselhos de Farmácia realizam, desde 5 de maio, mais uma campanha sobre a importância do uso racional de medicamentos para a proteção à saúde. A data é alusiva ao tema e neste ano, em que o mundo enfrenta um inimigo poderoso e desconhecido, o recado simples e direto é “não entre em pânico e antes de usar qualquer medicamento, consulte o farmacêutico”. O motivo do alerta é o resultado de um estudo realizado a pedido dos conselhos, pela consultoria IQVIA, que constatou um aumento significativo nas vendas de alguns medicamentos relacionados à Covid-19 nos três primeiros meses desse ano, quando aumentaram os casos da doença, em relação ao mesmo período do ano passado (veja no box).

 

Candeia – Com a chegada da estação fria, que cuidados as pessoas devem tomar em relação a medicamentos? Mesmo vitaminas podem ser ingeridas sem prescrição médica?

Fernando Turini – No outono/inverno as linhas com maior demanda são os que tratam os sintomas da gripe e resfriados, tosses e todas as patologias que envolvem o sistema respiratório. Em todas as estações do ano, os medicamentos são substâncias complexas, sejam eles prescritos pelo médico ou não. Infelizmente as fake news contribuem para o uso incorreto. Embora seja essencial para a sobrevivência humana, a suplementação vitamínica é quase sempre desnecessária. Os alimentos naturais fornecem a quantidade de que o organismo precisa alinhado a hábitos de vida saudáveis. Por isso, recomendamos que sempre que a população buscar as farmácias para comprar alguma vitamina ou qualquer produto, até aqueles que são comercializados sem necessidade de prescrição médica, procurem se orientar com o farmacêutico presente (obrigatoriamente) naquele local. Ele é o responsável por orientar o uso adequado e analisar indicações ou contra-indicações para estes produtos de venda livre nas farmácias. É um direito da população e obrigação das farmácias.

 

Candeia – Em sua opinião, por que a automedicação é tão comum no Brasil?

Fernando Turini – Os porcentuais de aumento na venda de remédios são uma clara demonstração da influência do medo sobre um hábito consagrado entre a população brasileira, o uso indiscriminado de medicamentos. Uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), por meio do Instituto Datafolha, constatou que a automedicação é um hábito comum a 77% dos brasileiros que fizeram uso de medicamentos nos últimos seis meses anteriores ao estudo, feito em 2019. Quase metade (47%) se automedica pelo menos uma vez por mês, e um quarto (25%) o faz todo dia ou pelo menos uma vez por semana. Estes hábitos podem estar associados aos aspectos culturais da população, onde uma grande parte tem limitação de acesso aos sistemas de saúde, enquanto outra busca uma forma mais fácil de resolver problemas de forma paliativa para manter-se trabalhando e realizando suas atividades diárias normalmente. Contudo, é extremamente importante frisar que, mesmo medicamentos usualmente utilizados para a automedicação (como os analgésicos e antitérmicos), possuem riscos e seu uso deve ser orientado pelo farmacêutico. Em resumo, os medicamentos são uma importante ferramenta para nossos cuidados de saúde, mas devem ser utilizados sempre de forma racional, sendo prescritos e orientados pelos profissionais adequados.

 

 

Medicamentos têm alta nas vendas

 

O farmacêutico Luiz Fernando Masselli Turini relatou na entrevista aumento na compra de alguns medicamentos.

Segundo ele, os conselhos de Farmácia alertam que todos os medicamentos oferecem riscos. Mesmo os isentos de prescrição podem causar danos, especialmente se forem usados sem indicação ou orientação profissional.

Dependendo da dose o paracetamol pode causar hepatite tóxica. A dipirona oferece risco de choque anafilático e o ibuprofeno é relacionado a tonturas e visão turva.

Já o uso prolongado da vitamina C pode causar diarreias, cólicas, dor abdominal e dor de cabeça. E com a ingestão excessiva de vitamina D, o cálcio pode depositar-se nos rins e até causar lesões permanentes.

 

Medicamento/princípio ativo        Janeiro a março/2019        Janeiro a março/2020     Variação(%)

Hidroxicloroquina Sulfato                231.546                                   388.829                                67,93%

Ibuprofeno                                          15.010.195                              14.615.066                           -2,63%

Paracetamol                                        11.150.452                              19.774.819                           77,35%

Dipirona Sódica                                  30.226.256                              46.716.599                           54,56%

Colecalciferol (Vitamina D3)           4.440.289                                6.019.038                             35,56%

Acido Ascórbico (Vitamina C)         9.327.016                                26.116.340                           180,01%