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Vidas negras importam

Tomando por empréstimo o verso marcante da canção “A carne”, interpretada pela voz da cantora Elza Soares, podemos resumir, de forma assertiva, o momento o qual estamos vivenciando.

O prezado leitor que compartilha a linha mais conservadora vai contra-argumentar: “-Lá vem vocês com o ‘mimimi’ de coisa que aconteceu lá nos Estados Unidos… “No Brasil, pode até haver racismo, mas nos Estados Unidos é pior”… “Bariri não tem destas coisas”.

Ora meus caros, lamento dizer que temos Floyds aos montes em nosso país, inclusive em nossa cidade.

A violência a que a população negra vem sendo acometida no pós-escravidão, talvez não tenha, em tempos hodiernos, o “requinte” que vimos o cidadão americano sofrer, mas nas favelas e periferias brasileiras, quem morre é o negro.

A morte, a qual nos referimos, não se trata apenas daquela que segue o valor literal da palavra, mas também a morte da vulnerabilidade, desprezo e da marginalidade a que acomete quase que exclusivamente, nós, eternos descendentes de escravos.

Lembremo-nos do saudoso baririense José Teixeira. Para aqueles que não conhecem sua história, vale a pena recordar. Homem negro e bom que, na Pandemia da Gripe Espanhola (olha a ironia do destino) foi voluntário no atendimento às vítimas que eram acolhidas no “hospital de campanha” da época. Além deste gesto nobre, Teixeira pegava os corpos deixados na rua – as famílias não os enterravam com medo da contaminação – e em uma carriola conduzia-os ao cemitério, concedendo-lhes um fim mais digno.

E onde está Teixeira na história de Bariri? Sim, ele está. Está registrado como o primeiro preso da cadeia fundada na cidade. Como não havia quem prender na época da inauguração do prédio, o referido cidadão, que era preto e alcoólatra, tornou-se o alvo ideal para marcar e ratificar a funcionalidade do estabelecimento criado para proporcionar a justiça. Matamos a figura deste homem que ajudou a salvar muitas vidas e foi benevolente sem ter nada em troca.

A triste história de Teixeira se repete com outras roupagens. A morte do menino João Pedro no Rio de Janeiro e do nosso jovem Patrick morto na periferia de nossa cidade e de tantos outros jovens negros que matam e morrem no Brasil, mantém o racismo em sua estrutura.

Vidas negras importam e nós nos importamos com a nossa população negra.

É importante frisar que não compactuamos com os gestos de violência que os Estados Unidos vêm enfrentando em seus protestos. No entanto, entendemos que a violência do opressor não se compara com a violência-resposta do oprimido (Malcom-X).

Não somos a escória maldita conforme afirma aquele escolhido para representar a população negra brasileira. Sérgio Camargo não nos representa. Falamos aqui abertamente do atual representante da Fundação Palmares, que no mínimo, pode ser chamado de inconsequente. Suas ideias não representam nossa luta centenária que vem desde de Zumbi até os dias atuais.

Repudiamos quem não fala por nós e para nós e não vamos nos calar. Colocaremos nossa cara à tapa e protestaremos até o fim. Seja em nossa Associação, seja em nossas escolas, pelas redes sociais, enfim…VIDAS NEGRAS IMPORTAM, NÃO VAMOS NOS CALAR. SALVE TEIXEIRA, SALVE FLOYD. AXÉ.

 

Associação Cultural Quilombo De Bariri