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Flávia Cassiola

“Quando Henry Ford recebe um carro produzido por ele trabalhando com um combustível do qual não tinha a menor ideia, aquilo foi um marco”

Visitando familiares em Bariri, Flávia Cassiola, pesquisadora da Shell Internacional, Produção e Exploração, aproveitou a vinda à Milionária do Vale para conhecer o Museu Mário Fava. E foi no interior do local que ela concedeu entrevista ao Jornal Candeia. Um dos pontos que mais chamaram a atenção de Flávia na travessia de 10 anos feita pelo mecânico baririense, pelo militar Leônidas Borges de Oliveira e pelo observador Francisco Lopes da Cruz foi a forma como improvisaram combustíveis para chegarem até os Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, a política atual das empresas de energia é a diversificação das fontes. Nesse sentido, a viagem feita entre 1928 e 1938 tem importância porque o trio de brasileiros soube improvisar combustíveis em diversas áreas geográficas por onde passavam. Flávia nasceu em Bariri. Fez faculdade de química em Araraquara. Sua vocação foi despertada nas visitas que fazia com o pai, quando ele era funcionário da Cesp. Cursou mestrado e doutorado na Unicamp, em Campinas, o último feito de forma concomitante em Harvard, nos Estados Unidos. Após cursar pós-doutoramento na USP, retornou aos Estados Unidos para atuar no Hospital da Criança em Harvard. Em 2008 retornou ao Brasil. Trabalhou na Petrobras por quatro anos e há seis é pesquisadora da Shell em Houston, Texas. Flávia começou a trabalhar na multinacional na recuperação melhorada de petróleo. Em 2016 passou a atuar na área de renováveis. Atualmente pesquisa a fotossíntese artificial, com o uso de dióxido de carbono, água e luz solar para que os componentes sejam transformados em combustíveis. A entrevista completa com Flávia Cassiola pode ser conferida no Facebook do Jornal Candeia.

Candeia – Morando nos Estados Unidos, como você soube da criação do Museu Mário Fava?
Flávia – Há um tempo, numa das visitas que fiz aos meus pais, em Bariri, fiquei sabendo da reforma do prédio. Pouco antes de vir para Bariri na atual ocasião, meu marido mencionou ter tomado conhecimento de uma reportagem no jornal O Estado de São Paulo fazendo propaganda do museu em Bariri. Ele citou o Mário Fava, que havíamos visto no museu de Henry Ford em Detroit, Michigan. Lembro-me de que um baririense havia feito parte da expedição da travessia pela Panamericana. Quando cheguei a Bariri no dia 5 de outubro, meu irmão deu uma volta comigo de carro pela cidade e parou bem em frente do museu. Naquele fim de semana passei com meus pais e depois fui a Campinas a trabalho. Retornei a Bariri no dia 11 de outubro e na primeira chance que tive visitei o museu.

Candeia – O Mário Fava então está retratado no museu de Henry Ford?
Flávia – Sim. Há uma menção a essa travessia e a visita dos três brasileiros à fábrica e o encontro com Henry Ford. Há um registro fotográfico aqui no museu que não me lembro de ter visto no museu em Detroit. O que mais me chamou a atenção no museu em Bariri foi a qualidade das fotos e a preocupação do retrato da viagem pelos diferentes pontos em que passaram. O número de fotos é pequeno, mas consegue retratar momentos-chave da expedição. É importante mostrar para os jovens, para as crianças e para todas as pessoas as soluções que eles davam, e eles não tinham muito tempo para isso. Era o que tinham nas mãos e o que podiam fazer ali na hora. É preciso mencionar também os momentos históricos desses 10 anos de travessia.

Candeia – Dentro de sua área de estudo, a química, como analisa a improvisação de combustíveis que o trio fez na longa viagem?
Flávia – É o desenvolvimento que a necessidade gera. É o que você precisa naquele momento e tem de ser desenvolvido, trabalhando com aquilo que está ao seu redor. O momento que vivemos hoje no mundo em relação a desafios da energia em todos os seus aspectos é exatamente esse. Quando o Ford T foi desenvolvido os combustíveis com os quais trabalhavam também tiveram de ser adaptados para determinadas condições. Naquela época estava havendo a transição da dependência do óleo de querosene e de baleia para a iluminação pública para o óleo de combustível fóssil, a gasolina. Quando Henry Ford recebe um carro produzido por ele trabalhando com um combustível do qual não tinha a menor ideia, aquilo foi um marco. Foram 10 anos improvisando combustíveis e mantendo sempre o mesmo motor. Qualquer informação dada pelos brasileiros aos técnicos do Henry Ford foi crucial para responder alguns pontos-chave do quebra-cabeça que tentavam montar na época.

Candeia – Dentro de sua área de atuação, quais os desafios do mundo hoje na área de combustíveis?
Flávia – Não só quanto a Shell, mas em relação a todas as companhias de energia, o que se tem notado no mundo atual é a diversificação da carteira. O óleo e o gás vindos dos combustíveis fósseis ainda prevalecem. Essa diversificação é a utilização das fontes de energia que são disponíveis naquela área geográfica. E novamente podemos falar da importância dessa viagem. Os três brasileiros souberam fazer exatamente isso.

Candeia – Como os Estados Unidos vêem a experiência do etanol brasileiro?
Flávia – Enxergam como um exercício muito positivo e bem-sucedido e serve como modelo. É uma solução que funciona para o Brasil e para alguns outros lugares por causa da matéria prima e de políticas públicas que foram adotadas.