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Vera Luzia Nascimento Fritz – “Um país que não cuida da criança vai continuar lá na frente a ter os mesmos problemas que temos hoje”

 

A Fundação Seade divulgou nesta semana projeção populacional para o Estado de São Paulo. O levantamento aponta para uma diminuição da população jovem e aumento do contingente de idosos. Para tratar das políticas públicas voltadas para esse público, o Candeia conversou por telefone na terça-feira com a presidente do Conselho Estadual do Idoso, Vera Luzia Nascimento Fritz. De acordo com ela, as políticas em prol dos idosos são deficitárias no Brasil. Vera afirma que é preciso investir na criança hoje para que, no futuro, haja uma mudança da realidade vivida por muitas famílias. Defende também uma maior integração entre as políticas e maior participação da sociedade nas decisões governamentais. Residente em Valinhos, Vera Fritz foi vice-presidente do conselho estadual. Em 2018 assumiu a presidência do órgão, gestão que irá até novembro deste ano. É licenciada em Educação Física na Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP). Possui título de especialização em Administração Desportiva conferido pela mesma instituição e é pós-graduada no nível de Mestrado também na USP. O Conselho Estadual do Idoso é um órgão deliberativo paritário vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (Seds).

 

Candeia – Qual sua avaliação sobre o trabalho do Conselho Estadual do Idoso?

Vera Fritz – É um trabalho que a cada dia vamos aprendendo e verificando que há muito a ser feito. Quando falamos em políticas públicas para os idosos, temos de analisar que o Brasil é plural e precisamos atender todos os idosos. Nosso problema fundamental é que não cuidamos das crianças. E um país que não cuida da criança vai continuar lá na frente a ter os mesmos problemas que temos hoje.

 

Candeia – O principal problema está na esfera educacional?

Vera Fritz – São vários, como educacional e gestacional. Hoje temos uma população jovem, praticamente infantil, engravidando e sem acompanhamento médico e sem orientação alimentar. A criança que nasce já traz uma estrutura deficitária. Há leis que garantem a presença da criança na escola, mas não sabemos onde se encontram as que estão fora do ambiente escolar. Não há quem fiscalize isso. Num evento em Brasília houve discussão sobre o analfabetismo da pessoa idosa. Ao sair da reunião, na Câmara dos Deputados, vi uma criança com menos de 10 anos vendendo bala. Isso em frente de uma Casa de leis. Se essa criança sobreviver, o que estaremos discutindo daqui a 50 anos? O Brasil não tem uma estrutura possibilitando que todos caminhem. A política pública voltada para a população idosa é deficitária.

 

Candeia – Quais os maiores desafios?

Vera Fritz – A política pública deveria ser intersetorial, mas não acontece. Há um monte de leis, mas tudo vai no mais ou menos. Com essa pandemia estamos vendo que Brasil é esse, com cada um se importando com sua situação. O pensamento geral é esse: se na minha casa tem não vou questionar. É difícil para quem tem dinheiro e para quem não tem. Quem envelhece uma hora irá precisar de cuidados. Com uma aposentadoria ínfima é possível pagar um cuidador?

 

Candeia – Muitas vezes a família tem de se desdobrar para esse auxílio…

Vera Fritz – A lei diz que a família, o Estado e a sociedade devem se incumbir dessa tarefa. No caso da mulher, hoje ela está inserida no mercado de trabalho e não se pode contar com ela para auxiliar o marido, por exemplo. O serviço público não está preparado para isso. Se a população irá aumentar e há diminuição de filhos por família, essa situação fica mais complicada. Como cuidar da velhice na hora em que a cabeça não funcionar mais? Preparei-me para ir a um instituto de longa permanência? Não temos esse olhar de futuro; pensamos somente no hoje.

 

Candeia – Outro ponto é que as entidades filantrópicas que atendem esse público têm suas limitações para atender grande número de pessoas…

Vera Fritz – Houve uma mudança da lei, com novo marco regulatório. Antes, as entidades poderiam ser híbridas, um pouco particular e um pouco gratuita. Agora atende só A ou B. O lençol é curto, com déficits. Nesse momento de pandemia há recursos para atendimento dos institutos de longa permanência. Não sabemos se o dinheiro será suficiente. Há iniciativas de empresas que estão à frente do poder público e que fazem um bom trabalho, sendo que é preciso cumprir todos os requisitos legais para o recebimento do dinheiro.

 

Candeia – Quais os avanços do conselho no Estado de São Paulo?

Vera Fritz – Os serviços funcionam, mas nem todos da maneira correta. Os idosos são atendidos, no entanto, nem todos que precisam. Embora a legislação determine que tenhamos uma política intersetorial, ela não acontece de maneira efetiva. Isso está começando a mudar em São Paulo. Se sou hipertensa, por exemplo, a Saúde irá comunicar a situação a outros órgãos para que haja a profilaxia. Vamos ver como se dará esse produto e sua continuidade. Infelizmente os governos não dão continuidade a programas.

 

Candeia – A senhora entende que deveria haver mais envolvimento da comunidade nas decisões políticas?

Vera Fritz – Conforme a pessoa que é eleita, pode ser que alguns assuntos vão parar na gaveta. Esse é um problema. Há também a falta de conhecimento em geral pela população. Teremos eleições em novembro, mas quem participa de uma audiência pública para discutir o orçamento? Tudo acaba ficando do jeito que os políticos querem. No ano passado fizemos conferência no Estado. O resultado foi encaminhado para as prefeituras. Solicitei reunião com o governador para discutir isso, mas não consegui até agora. Só se fala em pandemia e não há outra coisa. Com a mudança do conselho nacional, não houve a conferência em nível de Brasil e nem deve ocorrer. O conselho está irregular, não tem paridade e as secretarias não fazem parte do conselho. É importante que os municípios trabalhem o que foi discutido nas conferências locais. As pessoas precisam estar ativas para que haja avanços. Também devem saber que existe um conselho e levar as demandas para os representantes. É mais fácil resolver as questões nos municípios, principalmente nos de menor porte. Todos se conhecem, o prefeito e os vereadores são encontrados facilmente. A troca de experiências e de conhecimento entre as cidades é muito importante.