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Equipe médica e do laboratório do Centro de Terapia Celular no dia em que o paciente recebeu as células T-Car; Benedito de Pina Almeida Prado Júnior é o primeiro, à direita Divulgação

Pela primeira vez na América Latina, pesquisadores brasileiros realizaram um tratamento contra o câncer feito com células reprogramadas do próprio paciente. Com isso, os médicos conseguiram mudar a expectativa de sobrevida de Vamberto Luiz de Castro – que era menor que um ano – e ainda eliminaram os remédios para dor.
Aos 63 anos, ele sofre com um tipo de linfoma não Hodgkin, que afeta as células do sistema linfático, e já havia passado por várias linhas diferentes de quimioterapia desde 2017, sem sucesso. O paciente voltou para Belo Horizonte, onde reside, para iniciar a fisioterapia.
O tratamento inovador foi feito por pesquisadores do Centro de Terapia Celular (CTC) da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. O CTC é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiado pela Fapesp.
Um dos médicos que fez parte da equipe é nascido em Bariri e estudou na cidade. Trata-se de Benedito de Pina Almeida Prado Júnior.
Coube a ele coletar as células do sangue periférico para serem tratadas por outros profissionais da equipe. Também colaborou com a fundamentação ética e legal para justificar o tratamento, fora de um estudo clínico, por legítima defesa de terceiro.
O tratamento compassivo é um direito fundamental das pessoas que lutam para manter a própria vida.
Ao Candeia, Prado Júnior diz que tem muitas saudades e boas lembranças de Bariri, sua “querida terra natal”. Lembra que o apelido na infância era Tuca.
É filho do Sr. Pina, já falecido, e da dona Euthymia. Ao todo, o casal teve oito filhos: Barbara, José Carlos, Maria José, Euthymia, Francisco, Martha, Elisabeth, além de Prado Júnior.
O médico (e também advogado) é casado com Walkíria. O casal tem duas filhas: Patrícia, advogada; e Renata, estudante de medicina.
Prado Júnior diz que passou a infância no parque infantil municipal (onde hoje fica a Emei 2), a pré-escola na Escola Idalina Vianna Ferro e o ensino primário e início do secundário no Colégio e Escola Normal Estadual de Bariri (Cene).
Formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo em 1984, com residência médica na área básica de clínica médica e na área de concentração hematologia e hemoterapia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP) em 1988.
O mestrado em clínica médica e o doutorado em ciências foram todos na FMRP-USP. Prado Júnior trabalha no Hemocentro do HCFMRP e atua na área de aféreses automatizadas (coleta de componentes seletivos do sangue em máquinas, com finalidade transfusional ou terapêutica).
Segundo ele, o Centro de Terapia Celular (CTC) desenvolve muitos projetos que visam desenvolver o ensino, a assistência e a pesquisa. “Tivemos a honra de participar modestamente do tratamento do paciente cuja melhora ensejou muitas notícias na mídia”, diz o médico.

Tratamento utiliza células do próprio paciente

O tratamento inovador feito pelo Centro de Terapia Celular (CTC) é conhecido como terapia de células CAR-T. A técnica foi usada para tratar um caso avançado de linfoma difuso de grandes células B – o tipo mais comum de linfoma não Hodgkin, doença que afeta as células do sistema linfático. O paciente, de 63 anos, já havia sido submetido sem sucesso a várias linhas diferentes de quimioterapia desde 2017.
“A expectativa de sobrevida desse paciente era menor que um ano. Para casos como esse, no Brasil, normalmente restam apenas os cuidados paliativos. Contudo, menos de um mês após a infusão das células CAR-T observamos melhora clínica evidente e até conseguimos eliminar os remédios para dor”, contou Renato Cunha, pesquisador associado ao CTC e coordenador do Serviço de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP-USP).
A terapia de células CAR-T (acrônimo em inglês para receptor de antígeno quimérico) foi inicialmente desenvolvida nos Estados Unidos, onde é oferecida por dois laboratórios farmacêuticos a um custo de US$ 400 mil – sem considerar os gastos com internação. Já a metodologia desenvolvida no CTC tem custo aproximado de R$ 150 mil, que pode se tornar ainda mais baixo se o tratamento passar a ser oferecido em larga escala.
“Trata-se de uma tecnologia muito recente e de uma conquista que coloca o Brasil em igualdade com países desenvolvidos. É um trabalho de grande importância social e econômica para o país”, afirmou Dimas Tadeu Covas, coordenador do CTC e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Células-Tronco e Terapia Celular, apoiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O primeiro paciente foi atendido pela equipe do CTC e do Hemocentro do HC-FMRP-USP na modalidade de tratamento compassivo, que permite o uso de terapias ainda não aprovadas no país em casos graves sem outra opção disponível.
O grupo pretende agora iniciar um protocolo de pesquisa com um número maior de voluntários. “Já temos outros dois pacientes com linfomas de alto grau em vias de receber a infusão de células reprogramadas”, contou Cunha.

Como funciona

A partir de amostras de sangue dos pacientes a serem tratados, os pesquisadores isolam um tipo de leucócito conhecido como linfócito T, um dos principais responsáveis pela defesa do organismo graças à sua capacidade de reconhecer antígenos existentes na superfície celular de patógenos ou de tumores e desencadear a produção de anticorpos.
Com auxílio de um vetor viral (um vírus cujo material genético é alterado em laboratório), um novo gene é introduzido no núcleo do linfócito T, que então passa a expressar em sua superfície um receptor (uma proteína) capaz de reconhecer o antígeno específico do tumor a ser combatido.
“Ele é chamado de receptor quimérico porque é misto. Parte de um receptor que já existe no linfócito é conectada a um receptor novo, que é parte de um anticorpo capaz de reconhecer o antígeno CD19 (antiCD-19). Com essa modificação, os linfócitos T são redirecionados para reconhecer e atacar as células tumorais”, explicou Cunha.
Os leucócitos reprogramados são “expandidos” em laboratório (colocados em meio de cultura para que se proliferem) e depois infundidos no paciente. Antes do tratamento, uma leve quimioterapia é administrada para preparar o organismo.
“Cerca de 24 horas após a infusão das células CAR-T tem início uma reação inflamatória, sinal de que os linfócitos modificados estão se reproduzindo e induzindo a liberação de substâncias pró-inflamatórias para eliminar o tumor. Além de febre, pode haver queda acentuada da pressão arterial (choque inflamatório) e necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O médico deve ter experiência com a técnica e monitorar o paciente continuamente”, disse.
O aposentado submetido ao protocolo no HC da FMRP-USP no dia 9 de setembro já superou a fase crítica do tratamento, conseguiu se livrar da morfina – antes usada em dose máxima – e não apresenta mais linfonodos aumentados no pescoço.
“Além desses sinais clínicos de melhora, conseguimos detectar as células CAR-T em seu sangue e essa é a maior prova de que a metodologia funcionou”, disse Cunha.
De acordo com o pesquisador, somente após três meses será possível avaliar com mais clareza se a resposta à terapia foi total ou parcial – algo que depende do perfil biológico do tumor. Os linfócitos reprogramados podem permanecer no organismo pelo resto da vida, mas também podem desaparecer após alguns anos.

Fonte: Agência Fapesp