Programa Futuro Melhor concede bolsas de estudo a jovens que moraram em abrigos até os 18 anos; promotor busca parcerias para ampliar vagas

Ana Maria (nome fictício): “Eu me sinto importante dentro da universidade. É como um sonho”
“Eu achava impossível fazer faculdade por falta de apoio familiar. Ser universitária é como um sonho realizado, me sinto importante aqui dentro”. A afirmação resume o entusiasmo de Ana Maria (nome fictício), de 18 anos, beneficiada por uma das duas bolsas de estudo oferecidas na primeira edição do Programa Futuro Melhor, idealizado pela Promotoria da Infância e Juventude de Bauru. A ação do Ministério Público Estadual (MPE) tem como foco garantir novas perspectivas a jovens que já moraram em abrigos e não foram adotados até os 18 anos.
São garotos e garotas vítimas dos mais diversos tipos de violência ao longo da vida e que, ao completar a maioridade, tiveram que deixar as entidades e, hoje, dependem do seu próprio esforço para se sustentar e sobreviver.
Apesar da importância do programa, a promotoria relata esforço hercúleo para conseguir estender a parceria e ampliar o número de vagas ofertadas, que, hoje, se limitam a duas. A situação ganha contornos ainda mais preocupantes já que, em 2020, ao menos seis dos 139 abrigados nos oito serviços de acolhimento da cidade terminarão o Ensino Médio, gerando uma luta contra o tempo ainda maior.
“Hoje, temos a USC e FIB como parceiras. Apesar de Bauru ser uma cidade universitária, somente essas duas faculdades ofereceram em um primeiro momento. Neste segundo semestre, voltaremos a fazer contato com todas as faculdades particulares de Bauru. Espero conseguir mais apoio”, comenta o promotor da Infância e Juventude, Lucas Pimentel.
O programa foi colocado em prática no ano passado e as duas bolsas de estudo foram concedidas neste primeiro semestre. Ao entrar para o programa, o ex-abrigado estende seu vínculo com o Estado e continua monitorado pela promotoria, inclusive sobre seu desempenho escolar, que não pode apresentar faltas e notas baixas. O monitoramento só termina após a diplomação.
“São jovens, em sua maioria, desmotivados por situações de violência de uma vida toda. Muitos saem dos abrigos e já caem direto no mercado de trabalho, hoje. A falta de perspectiva também aumenta a chance de caírem na criminalidade. Só que eles também têm sonhos e potencial, só precisam de apoio. É isso o que o programa faz”, ressalta Pimentel.
Violência e negligência que também resultam em baixo rendimento escolar. “A maioria não consegue bom desempenho no Enem, por isso, o acesso à universidade pública é algo mais distante. Com um programa de reforço escolar que também iniciamos, pretendemos mudar isso. Mas, o que temos agora é uma demanda urgente e a bolsa particular é essencial”, explica o promotor.
REALIZANDO SONHOS
Ana Maria e Ana Clara, as beneficiadas pelas bolsas de estudo do programa Futuro Melhor, pediram para ter nomes fictícios nesta reportagem. Elas temem o preconceito e remexer em marcas doloridas do passado. Com a imagem preservada, ambas detalham como entrar na faculdade mudou a perspectiva da vida que tinham.
“Desde meus 16 anos, quando comecei a pensar o que seria de mim, sonhava com uma faculdade, mas nunca achei que fosse possível, até porque eu tinha dificuldade em aprender”, comenta Ana Maria, que, depois de viver o abandono do pai alcoólatra, passou anos em um abrigo da cidade.
Hoje, ela mora sozinha com ajuda do aluguel social. Para se sustentar, conta com auxílio de uma madrinha que conheceu na época do abrigo e estuda para dar seu melhor no curso de Pedagogia.
“Um dia, quero fazer pós e trabalhar na área da assistência. Gostaria muito de atuar com autistas e pessoas deficientes”, projeta a jovem, cheia de sonhos.
Já Ana Clara, 18 anos, trabalha como auxiliar em um escritório nas horas em que não está na faculdade, cursando Recursos Humanos. Renda que a ajuda a manter a quitinete em que mora com auxílio do aluguel social. “Eu sempre quis fazer uma faculdade, mas tinha a certeza que não iria conseguir. O projeto abriu grandes portas para mim”, revela a garota, que, aos 15 anos, viu a mãe a abandonar, abrindo mão da sua guarda.
“Agora, sonho em me formar e trabalhar para ter a vida estabilizada e, quem sabe, conseguir cursar Direito. Gostaria muito de ser advogada e prestar concursos para delegada para ajudar as pessoas”, finaliza.

Promotor da Infância e Juventude, Lucas Pimentel quer ampliar parceria com universidades para garantir mais bolsas de estudo
Jcnet
























