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Professor Shawn Miller: Mário Fava foi essencial para a missão – Divulgação

Shawn Miller – “Naquela época, queríamos construir estradas para conectar. Agora queremos construir muros para obstruir”

 

O professor Shawn Miller, 55 anos, que reside nos Estados Unidos, está escrevendo um livro sobre a Carretera Panamericana. No trabalho, que deve estar concluído em 2023, ele destaca a participação do baririense Mário Fava na construção da estrada que foi concebida para interligar as três Américas. Miller leciona na Universidade Brigham Young, localizada em Provo, Utah, Estados Unidos. É historiador do Brasil e já escreveu livros sobre as florestas coloniais (Fruitless Trees, Stanford University Press, 2000) e as ruas do Rio de Janeiro (The Street is Ours “A Rua é Nossa”, Cambridge University Press, 2018). Por e-mail ele concedeu entrevista ao Candeia e disse que seria um prazer visitar o Museu Mário Fava, que fica em Bariri.

 

Candeia – Qual o vínculo do senhor com o Brasil?

Miller – Morava no Brasil nos anos 80, quando servi uma missão religiosa, passando dois anos no Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Goiás. Continuo pesquisando em português e visito de vez em quando o País para consultar os arquivos, mas espero uma prolongada visita no futuro, quando puder ressuscitar a facilidade com a língua.

 

Candeia – Como tomou conhecimento da existência da Estrada Panamericana?

Miller – Faz tempo que tenho uma fascinação com a Estrada Panamericana, como muitas outras pessoas. Muitos insistem que é a estrada mais longa do mundo, mas ignoram que nunca foi terminada e que é impossível dirigir de um continente para outro. Interessa-me mais as razões pelas quais a estrada não foi completada, que faria os membros da Expedição Brasileira muito tristes.

 

Candeia – Em suas aulas como professor de história chega a mencionar a respeito dessa estrada aos alunos? Qual a importância da estrada para o senhor?

Miller – Sim, de vez em quando faz parte. Por exemplo, quando ensino migração no meu curso de história mundial, falamos sobre os sonhos da primeira parte do século, quando muita gente, inclusive os membros da Expedição Brasileira, queria ver passagem livre entre países, mais harmonia e comércio. Naquela época, queríamos construir estradas para conectar. Agora queremos construir muros para obstruir.

 

Candeia – Quando o livro começou a ser escrito e quando deve ser publicado? Será em inglês apenas?

Miller – Espero publicar em 2023, que será o aniversário de 100 anos da ideia de construir a estrada. Um dos meus livros, sobre a história ambiental da America Latina, foi traduzido para o chinês e o coreano, e espero que este livro seja traduzido para espanhol e português.

 

Candeia – Por que resolveu debruçar sobre esse tema?

Miller – Creio que a estrada tem muito a dizer sobre as relações entre países americanos, sobre migração, turismo, imperialismo, nossos sonhos e nossas realidades. As razões pelas quais não foi completada mudam de década em década. Inicialmente, foi a grandeza do projeto e uma geografia difícil. Depois foram preocupações sobre o meio ambiente na América Central. E agora a preocupação sobre migração. Panamá e Colômbia são as únicas nações do mundo sem estrada automobilística porque o Panamá não quer mais imigrantes colombianos. Interessa-me também a importância de estradas para as economias, seus impactos ambientais, corrupção e como transformaram fronteiras.

 

Candeia – Quais suas fontes de pesquisa para escrever o livro?

Miller – São muitas. Documentação governamental, revistas, jornais, correspondência, literatura técnica oriunda de muitos países. Também são muitas reportagens de viagens na estrada, inclusive aquelas associados com a expedição brasileira.

 

Candeia – O que considera mais marcante desde o início até o fim da aventura, com a chegada aos Estados Unidos?

Miller – A longa cooperação entre países e o apoio que davam são incríveis. Nações como os Estados Unidos, Brasil, Argentina e outras doavam milhões de dólares para construir estradas na America Central, por exemplo. Mais marcante foi o fracasso de não terminar. Está fora da memória por muitos, e muitos chegaram ainda hoje no fim da estrada na Colômbia ou Panamá e declaram: “como assim, não há estrada?” Construímos vias para toda esquina da terra, mas falhamos em terminar a estrada mais popular do século 20.

 

Candeia – Como descreve a participação de Mário Fava na abertura da estrada?

Miller – O Mário foi essencial para a missão. Foi uma sorte que se vinculou à expedição e também que ele não sabia que era tão longe. Ele não sabia que demoravam 10 anos para chegar aos Estados Unidos, mas ele foi valente e persistente. Sua inteligência e competência não somente mantiveram dois veículos em capacidade de passar pelas terras mais difíceis do mundo, mas também inventou vários meios de transportá-los sobre rios e montanhas. Seus companheiros eram engenheiros, mas Mario tinha experiência pratica e a criatividade de superar muitos obstáculos. Mas foi humilde. Nas várias fotos, Mário quase sempre está de lado, em macacão sujo ou terno emprestado. Sem ele não chegavam.

 

Candeia – Pretende vir a Bariri para conhecer o Museu Mário Fava?

Miller – Seria um prazer visitar! Que a Covid-19 desapareça e cesse de atormentar os Estados Unidos e o Brasil para que possamos passar quando queremos, que foi o sonho da Estrada Panamericana.