
“O principal vilão é o sedentarismo. Hoje usamos carro para pequenas distâncias, trabalhamos muitas vezes em home office e abusamos da chamada comodidade tecnológica” (Divulgação)
A síndrome do bumbum morto, como ficou popularmente conhecida a amnésia glútea, é um problema real que vem ganhando destaque entre os ortopedistas. E os culpados podem estar mais próximos do que se pensa: o excesso de tempo sentado, seja no trabalho, no sofá ou no carro, além do sedentarismo aliado ao uso excessivo da tecnologia para tarefas simples. O alerta é feito pelo ortopedista e traumatologista Márcio Godinho, da equipe hospitalar da Hapvida. Em entrevista ao Candeia, ele explica como identificar os sinais, os riscos de ignorar o problema e quais cuidados ajudam a prevenir ou tratar essa síndrome que já ganhou fama pelo nome curioso, mas traz consequências reais para a saúde.
Candeia – Afinal, o que é a síndrome do bumbum morto e como ela acontece? O glúteo realmente esquece de funcionar?
Márcio Godinho – A síndrome do bumbum morto, ou amnésia glútea, é a inibição da ativação adequada dos músculos glúteos – máximo, médio e mínimo. Eles não deixam de funcionar por completo, mas ficam enfraquecidos e deixam de ser ativados da forma correta. Com isso, o corpo compensa o esforço usando outros músculos, como isquiotibiais, quadríceps e os músculos da lombar. Isso acaba gerando sobrecarga, desalinhamentos posturais e até dores crônicas.
Candeia – Quais hábitos do dia a dia contribuem para essa amnésia?
Márcio Godinho – O principal vilão é o sedentarismo. Hoje usamos carro para pequenas distâncias, trabalhamos muitas vezes em home office e abusamos da chamada comodidade tecnológica, como pedir comida por aplicativo ou usar controle remoto para quase tudo. Pessoas que permanecem mais de seis horas por dia sentadas podem ter até 30% menos ativação glútea. Isso gera um desequilíbrio: os glúteos enfraquecem, enquanto músculos como o psoas, um flexor do quadril, encurtam e assumem a função de sustentação, sobrecarregando outras áreas.
Candeia – Até quem frequenta academia corre esse risco?
Márcio Godinho – Sim. Se exercícios como agachamentos ou levantamento terra forem feitos de forma incorreta, podem estimular mais a lombar e as coxas do que os glúteos. Isso é comum em pessoas que desenvolvem dores na lombar ou no quadril e não conseguem evoluir nos treinos justamente porque os glúteos continuam inativos.
Candeia – Existem sinais que indicam que os glúteos estão como que desligados?
Márcio Godinho – Sim, e alguns até curiosos. O Sinal do Bolso Vazio acontece quando, ao se levantar de uma cadeira, uma das nádegas parece frouxa, sem contração. Já o Sinal da Selfie do Quadril é quando a pessoa caminha e o quadril sobe demais de um dos lados. Temos também o Sinal do Bumbum de Pato, que é a postura com quadril empinado e hiperlordose lombar. E, por fim, o Sinal da Cozinha, quando a pessoa fica muito tempo em pé e precisa se apoiar na pia para compensar a fraqueza glútea. Se o paciente apresentar três ou mais desses sinais, há grande probabilidade de ter amnésia glútea.
Candeia – Quais são as consequências reais dessa síndrome?
Márcio Godinho – Ignorar a síndrome pode levar a problemas sérios. Entre eles, dores lombares persistentes, tendinites no quadril, inflamações nos glúteos e até a síndrome do piriforme, que é a compressão do nervo ciático por conta da compensação de outros músculos. O paciente pode sentir cansaço muscular ao subir escadas, dores ao correr ou até desconforto em ficar em pé por muito tempo. Muitas vezes, esses sintomas são tratados como problemas isolados, mas a causa está justamente na inibição dos glúteos.
Candeia – Há tratamento?
Márcio Godinho – Sim. Com orientação profissional, é possível reverter o quadro em quatro a oito semanas. O tratamento envolve a reativação dos músculos glúteos com exercícios específicos, progressivos e bem executados. O acompanhamento com fisioterapeutas ou educadores físicos é fundamental. Além disso, pequenas mudanças na rotina, como evitar longos períodos sentado e praticar exercícios simples em casa ou no trabalho, ajudam muito na prevenção. Alguns exercícios que podem ser realizados em casa: ponte glútea (3 séries de 12 repetições), clamshell com faixa elástica (3 séries de 15 repetições por lado), hip trust com sofá ou banco (podendo adicionar peso como uma mochila ou livros). Existem também alguns que podem ser executados no trabalho, como marcha sentada com faixa (colocada ao redor das coxas, afastando o joelho contra resistência da faixa); contração isométrica dos glúteos (contraindo os glúteos sentado ou em pé o mais forte possível por 10 segundos); liberação do glúteo com bola de tênis (sentando-se sobre a bila de tênis fazendo movimentos para liberar pontos de tensão.
























