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Larissa Bueno Polis Moreira

“O câncer infanto-juvenil, diferente do câncer que ocorre na população adulta, não está relacionado com hábitos de vida”

Diferentemente dos casos de câncer em adultos, relacionados com hábitos de vida, os tumores que acometem crianças estão mais relacionados com alterações que a criança sofreu durante sua formação ainda no intra-útero. Por esse motivo, é preciso focar no diagnóstico precoce para que as chances de cura sejam maiores. A orientação é da oncopediatra Larissa Bueno Polis Moreira, chefe do Departamento de Ambulatório e Internação da Pediatria do Hospital Amaral Carvalho (HAC), de Jaú. Ela é formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Catanduva, com residência em pediatria no Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Também possui os títulos de residência em oncologia e hematologia pediátrica no HC-USP de Ribeirão Preto e de transplante de medula óssea no HAC. É mestre na área de saúde da criança e do adolescente pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Larissa fala sobre o tema nesta entrevista porque o Setembro Dourado é o mês escolhido para intensificar a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer infanto-juvenil, representado mundialmente pelo símbolo do laço dourado. O HAC é referência em oncologia e transplantes de medula óssea. O hospital situado em Jaú realiza anualmente mais de 13 mil atendimentos na ala pediátrica, com cerca de 2,7 mil aplicações de quimioterapia, 800 cirurgias, mil internações e mais de 70 mil exames de imagem e laboratoriais.

Candeia – Por que a senhora resolveu atuar na área de oncopediatria?
Larissa – Desde que entrei na faculdade pensava em me especializar na área da oncologia. Quando entrei em contato com a pediatria também me encantei, então optei por juntar as áreas e me especializar em oncologia pediátrica. Vi na especialidade uma oportunidade de ter grandes vínculos com os pacientes, familiares e poder ajudar no tratamento de uma doença que afeta toda a estrutura familiar e muda a rotina da criança.

Candeia – O câncer infanto-juvenil representa de 1% a 3% de todos os casos de câncer diagnosticados. Quais os tumores que mais atingem as crianças e adolescentes?
Larissa – A leucemia aguda é a primeira causa de neoplasia da infância (principalmente a leucemia linfoide aguda), seguida pelos tumores de sistema nervoso central e linfomas. Também acometem as crianças o neuroblastoma, tumor de Wilms, que são tumores os abdominais mais frequentes, osteossarcoma e sarcoma de Ewing (são os tumores ósseos mais frequentes), tumores de células germinativas, o retinoblastoma (retina), além de outros sarcomas de origem embrionária (diferente dos sarcomas do adulto).

Candeia – O câncer na infância tem a ver com fator genético?
Larissa – Pode ter, mas é mais raro. A maioria está relacionada com alterações que a criança sofreu durante sua formação ainda no intra-útero. O papel dos fatores ambientais no desenvolvimento do câncer infanto-juvenil é mínimo. Porém é possível prevenir os riscos da criança e do adolescente de desenvolver câncer na idade adulta com a presença de hábitos saudáveis desde a infância com alimentação adequada, atividade física regular, proteção da pele contra o sol, não ter contato com tabagismo.

Candeia – De que forma é possível fazer a prevenção em relação às crianças?
Larissa – O câncer infanto-juvenil, diferente do câncer que ocorre na população adulta, não está relacionado com hábitos de vida. Dessa forma, não falamos em prevenção, pois não conseguimos diminuir sua incidência com mudanças de hábitos. Na oncologia pediátrica falamos em diagnóstico precoce. Quanto mais precoce o diagnóstico e a realização do encaminhamento para um serviço de referência o mais rápido possível, maiores serão as chances de cura.

Candeia – Os pais devem ficar atentos a quais sintomas?
Larissa – Manchas roxas pelo corpo e sangramentos sem traumas no local, febre prolongada sem causa determinada, dores nos ossos e articulações com ou sem inchaços, palidez sem explicação, vômitos acompanhados de dores de cabeça, principalmente quando a criança acorda à noite com as dores de cabeça, diminuição da visão ou perda do equilíbrio, caroços em qualquer parte do corpo especialmente na barriga, crescimento do olho, podendo estar acompanhado de mancha roxa no local, emagrecimento sem explicação.

Candeia – Quais as diferenças e semelhanças na incidência e tratamento do câncer em crianças e adolescentes e em adultos?
Larissa – Os cânceres infantis afetam mais as células do sangue, sistema nervoso, tecidos de sustentação e não têm relação com fatores ambientais e hábitos de vida. Os cânceres que acometem os adultos afetam com mais frequência as células que recobrem os órgãos e apresentam mutações que estão relacionadas com o estilo de vida, como exposição ao sol e ao tabaco. Os tumores infantis crescem mais rápido e podem ser mais invasivos, por outro lado, respondem melhor ao tratamento.

Candeia – Que inovações estão sendo utilizadas com bons resultados para tratar câncer em crianças? Quais os cuidados especiais no tratamento com os pequenos?
Larissa – O estudo nessa área é contínuo, têm surgido novas medicações que estão melhorando os resultados do tratamento proporcionando maiores chances de cura. A leucemia linfoide aguda, por exemplo, que é a neoplasia mais frequente da infância, saímos de uma sobrevida de 10% nos anos 1960 e 197070 e hoje chegamos a 90% de chances de cura em alguns subtipos da doença de bom prognóstico. Os cuidados hoje devem ser focados na preocupação em reduzir efeitos tardios do tratamento, pois as crianças curadas têm uma vida inteira pela frente. Devemos sempre que possível minimizar os efeitos das terapias para proporcionar uma vida saudável após a sua finalização. Durante o tratamento os cuidados deverão ser com os efeitos agudos da quimioterapia e radioterapia como náuseas, vômitos, feridas na boca e infecções devido à imunidade baixa.