
Gisleine Macena Camillo – Educadora e gestora do Grupo Mini Mundo e Colégio Max
Uma palavra de mulher
Sinto-me uma mulher privilegiada por ter convivido, ao longo da vida, com tantas mulheres. Mulheres de todas as idades e histórias: mães, avós, bisavós, tias, professoras, moças, meninas. De muitas delas recebi tanto — gestos, palavras, exemplos — que hoje só posso agradecer. A elas e a Deus.
Guardo na memória uma mulher madura que me recebia em sua casa quando meus filhos ainda eram pequenos. Havia sempre um café recém- passado, perfumando o ambiente. Enquanto as crianças brincavam juntas, nós nos sentávamos e conversávamos.
Pouca gente imagina o alívio que esses momentos trazem para uma mãe jovem: quando alguém de confiança acolhe seus filhos, cuida deles, brinca com eles. Por alguns instantes podemos respirar, tomar um café quente, trocar ideias com outros adultos e lembrar que ainda existimos para além das tarefas do dia.
Ao longo da vida observei muitas histórias de mulheres.
Vi mães dedicadíssimas perderem filhos para a morte, para a bebida, para as drogas. Vi outras sofrerem silenciosamente pela distância dos netos.
Conheci mulheres que aguardaram décadas para receber uma herança que lhes pertencia por direito, impedidas por familiares que levantaram obstáculos e atrasaram o que deveria ter sido simples.
Vi mães cuidarem de filhos gravemente enfermos, doenças duras e ameaçadoras, esquecendo muitas vezes de si mesmas — e, depois de tanta luta, testemunharem a cura tão aguardada.
Assisti mulheres buscarem filhos já adultos, já casados, para trazê-los de volta para casa quando a doença chegou. E, nos últimos dias de vida deles, entregarem amor, cuidado e dedicação absoluta até a despedida precoce.
Vi uma mãe idosa reunir as últimas forças para ir até a rodoviária e viajar longas horas apenas para ajudar a filha distante com a casa e com os netos.
Ouvi histórias de mães que enfrentavam as filas das penitenciárias. Submetiam-se a revistas invasivas para ver os filhos, levando alimentos e roupas — tudo contado, aberto, examinado. E entre as mães que oravam pelos filhos ouvi uma oração que jamais esqueci:
“Meu filho é como um cachorrinho naquele lugar… olha por ele, Jesus.” Também vi beleza e dignidade.
Recordo-me de um casal chegando à igreja para o culto, Bíblia nas mãos. Ao abrir o carro, pai e mãe retiraram com cuidado a cadeira de rodas do filho, um rapaz ainda jovem, acometido de paralisia cerebral. Subiram juntos a rampa do templo, acomodaram-no com carinho em um grande puff e sentaram-se ao lado.
A esposa era tratada como uma verdadeira lady. O pai, com delicadeza, dava água ao filho e secava-lhe os lábios.
E eu, segurando as lágrimas, orava em silêncio:
“Ó Jesus, no teu reino eterno eles verão este filho perfeito, restaurado, com o corpo transformado. Porque lá „Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram‟.”
(Apocalipse 21:4)
Também vi a dor silenciosa.
Lembro-me de uma avozinha sentada num canto da cozinha de uma casa que já não era mais sua. Depois da morte do esposo, os filhos venderam a antiga propriedade. Daquele mundo que ela construiu — o jardim, as ervas, os cantinhos da casa — quase nada restou.
Apenas um terço gasto pelo uso e suas orações fiéis a acompanhavam. Quem mede essa dor?
Quem consola esse desamparo? Onde está a honra que lhe é devida?
Ó Deus, Tu és o Deus dos órfãos e das viúvas. Olha por elas.
Vi também a mãe que, depois de criar tantos filhos, ainda precisa trabalhar arduamente para sobreviver, porque um salário mínimo de pensão mal cobre as necessidades básicas de comida, moradia e remédios.
Vi a jovem mãe grávida do segundo filho sair para o trabalho com lágrimas nos olhos enquanto o pequeno de três anos, agarrado ao portão, chorava:
— Não vai baiá, mamãe… não vai baiá…
E ela chegava ao trabalho com o coração partido.
Mas ali a esperava a merendeira da escola — mulher simples, sofrida e sábia — que lhe oferecia um chá, um ombro amigo e escutava suas lágrimas.
Depois dizia com calma:
— Tuuuudo passa, filha… tudo passa. E passa mesmo.
Observei também aquela mãe que, ao deixar o filho na estação do metrô para seguir para o trabalho, desejava parar o tempo. Queria levá-lo à escola, buscá-lo na saída, estar presente nos pequenos momentos.
Mas não podia.
O dever a chamava.
E ela seguia caminho com o coração apertado, sentindo nas costas o olhar triste do filho que ficava para trás.
Vi ainda outra mulher que, envergonhada diante das colegas, só abria sua marmita quando se afastava de todos. Dentro dela havia apenas arroz e feijão. Então ela ia comer sozinha numa pequena cozinha ao lado, sentada sobre um botijão de gás.
E vi também a sabedoria de uma avó.
Cinco netos ao redor pediam doces, e ela não tinha dinheiro. Mas tinha criatividade e carinho. Preparou pipoca caramelada e, com o restante da calda, fez pequenos pirulitos.
Assim saciou a alegria infantil e, sem saber, construiu memórias inesquecíveis de uma infância feliz.
Memórias de uma mulher simples — e extraordinária.
Gisleine Macena Camillo
Capítulo final do livro: “Autoinventário de mulheres”
























