
Isabela Bolini de Almeida
“O verdadeiro combate começa muito antes: educação para igualdade de gênero, fortalecimento da rede de atendimento, autonomia econômica das mulheres, rapidez na proteção judicial e conscientização da sociedade”
Advogada, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Bariri e voluntária da Casa da Mulher “Mariana Forti Bazza”, Isabela Bolini de Almeida destaca, em entrevista ao Jornal Candeia, a importância da campanha Agosto Lilás, que neste ano marca os 20 anos da Lei Maria da Penha com o tema “Uma lei que protege. Um compromisso com a vida.” Ela reforça que o combate à violência contra a mulher depende não apenas da punição aos agressores, mas também da prevenção, da educação, do fortalecimento da rede de proteção e do envolvimento de toda a sociedade. Isabela ainda alerta para o aumento das denúncias de violência psicológica em Bariri, orienta sobre os sinais de relacionamentos abusivos, os canais de denúncia e avalia que o município tem avançado no acolhimento às vítimas, embora ainda existam desafios para consolidar uma atuação cada vez mais integrada e humanizada da rede de atendimento.
Candeia – O que representa o Agosto Lilás e por que essa campanha é tão importante?
Isabela – O Agosto Lilás é uma campanha nacional dedicada à conscientização, prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher. Mais do que disseminar informações, convida toda a sociedade à reflexão sobre uma realidade que ainda atinge milhares de mulheres e famílias. A campanha busca fortalecer a rede de proteção, incentivar a denúncia de situações de violência, promover o conhecimento sobre os direitos das mulheres e reforçar a mensagem de que nenhuma vítima está sozinha. O enfrentamento à violência é uma responsabilidade coletiva, que depende da atuação integrada do poder público e do compromisso de toda a sociedade.
Candeia – Qual é o principal objetivo da mobilização neste mês? A campanha deste ano traz algum tema ou foco específico?
Isabela – Neste ano, o Agosto Lilás ganha um significado ainda mais especial ao marcar os 20 anos da Lei Maria da Penha, sob o tema “Uma lei que protege. Um compromisso com a vida.” A campanha reforça a importância de uma legislação que transformou a forma de enfrentamento da violência doméstica e familiar no Brasil. Em Bariri, as ações desenvolvidas têm como foco ampliar o diálogo com a comunidade, fortalecer a rede de proteção e atendimento às mulheres e dar visibilidade aos canais de acolhimento e denúncia existentes. O objetivo é garantir que toda mulher saiba onde e como buscar ajuda, ao mesmo tempo em que a sociedade seja orientada sobre a importância de reconhecer os sinais da violência e agir de forma responsável e solidária diante dessas situações.
Candeia – Como está a situação da violência contra a mulher em nosso município? Quais são os tipos de violência mais registrados na cidade?
Isabela – Os casos de violência psicológica continuam sendo os mais frequentes. No primeiro semestre de 2026, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) recebeu o encaminhamento de 65 novos casos de violência doméstica. É importante lembrar que os números oficiais representam apenas os casos denunciados. Sabemos que existe uma subnotificação significativa, pois muitas mulheres ainda não conseguem romper o ciclo da violência. Então, quando alguém diz que “os números aumentaram”, eu prefiro enxergar de forma mais otimista: talvez mais mulheres estejam encontrando coragem para denunciar. A violência doméstica sempre existiu de forma exorbitante, o silêncio nunca foi um bom indicador.
Candeia – Em sua opinião, porque o aumento das sanções pela Lei Maria da Penha não representou diminuição nos casos de feminicídio e outros crimes contra a mulher?
Isabela – O endurecimento das penas é importante, mas, sozinho, não resolve um problema que tem raízes culturais e sociais muito profundas. A lei é indispensável, mas ela entra em cena quando a violência já aconteceu. O verdadeiro combate começa muito antes: educação para igualdade de gênero, fortalecimento da rede de atendimento, autonomia econômica das mulheres, rapidez na proteção judicial e conscientização da sociedade. Punir é essencial, mas prevenir continua sendo o caminho mais eficaz.
Candeia – Por que muitas mulheres ainda têm dificuldade para denunciar seus agressores?
Isabela – Existem muitos motivos. Medo, dependência financeira ou emocional, preocupação com os filhos, vergonha e, muitas vezes, a esperança de que o agressor vá mudar. Além disso, a violência costuma se instalar aos poucos. O abuso vai sendo normalizado até que a vítima tenha dificuldade para perceber a gravidade da situação. Por isso, acolher sem julgamentos é tão importante. Ninguém sai de um relacionamento abusivo porque foi cobrado; sai porque encontrou apoio e se sentiu segura para dar esse passo.
Candeia – Quais sinais indicam que uma mulher está vivendo um relacionamento abusivo?
Isabela – O relacionamento abusivo raramente começa com agressões físicas. Geralmente, ele se inicia com controle excessivo, ciúmes disfarçados de cuidado, manipulação, humilhações e isolamento da vítima. Quando a mulher passa a viver com medo, perde sua autonomia ou muda seu comportamento para evitar conflitos, esse é um importante sinal de alerta. Afinal, quem ama respeita e dialoga, não controla.
Candeia – Como familiares, amigos e vizinhos podem ajudar uma vítima sem colocá-la em maior risco?
Isabela – O primeiro passo é acolher sem julgar. Muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos por medo ou por falta de apoio. É importante ouvir, oferecer ajuda, informar sobre os serviços disponíveis e incentivar a busca por atendimento especializado. Em situações de risco iminente, a Polícia Militar deve ser acionada imediatamente. Também é essencial evitar confrontar diretamente o agressor, pois isso pode aumentar o risco para a vítima. O apoio deve sempre priorizar sua segurança.
Candeia – Quais canais de denúncia estão disponíveis e quando devem ser utilizados?
Isabela – Em casos de emergência ou quando a violência estiver acontecendo, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo telefone 190. Também está disponível a Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, que funciona em todo o país, oferecendo orientações e recebendo denúncias de forma anônima. Além disso, a mulher pode procurar a Polícia Civil e o Ministério Público. Para orientações, acolhimento e suporte, a mulher vítima de violência tem prioridade no atendimento de saúde mental, bem como pode buscar a atendimento na rede de proteção, a Casa da Mulher e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).
Candeia – Qual sua avaliação sobre os serviços existentes no município para acolher mulheres em situação de violência?
Isabela – Temos profissionais comprometidos e uma rede de atendimento que desempenha um trabalho sério. Mas seria equivocado dizer que está tudo resolvido. Avançamos muito, porém ainda há um longo caminho pela frente. O enfrentamento à violência contra a mulher exige uma atuação integrada entre saúde, assistência social, segurança pública, educação e Judiciário. Nesse contexto, após recomendação do Ministério Público, foi instituído um Comitê Intersetorial para elaboração do Plano Municipal Permanente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher. A proposta é organizar e fortalecer o fluxo de atendimento, definindo protocolos e responsabilidades para garantir um acolhimento mais eficiente, humanizado e articulado entre todos os serviços da rede.
Câmara de Bariri abre programação do Agosto Lilás
A Câmara Municipal de Bariri aderiu à campanha Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, com a instalação de balões e banner alusivos à campanha. A iniciativa contou com a participação da Procuradora Especial da Mulher, vereadora Aline Mazo Prearo (Republicanos).
A programação também teve a participação da advogada e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Bariri, Isabela Bolini de Almeida, que atua desde 2021 no acolhimento e atendimento de mulheres em situação de violência e é voluntária na Casa da Mulher.
Na sessão da segunda-feira (3), durante sua explanação, Isabela destacou que o Agosto Lilás ganha um significado especial neste ano, quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos, em 7 de agosto. Segundo ela, a legislação representa um marco na proteção das mulheres e na estruturação da rede de enfrentamento à violência, sendo considerada uma das leis mais avançadas do mundo sobre o tema. Apesar dos avanços, ressaltou que ainda há um longo caminho a percorrer para garantir proteção efetiva às vítimas.
A presidente do Conselho enfatizou que o enfrentamento da violência é responsabilidade do Estado, mas também de toda a sociedade. Ela alertou que a violência doméstica geralmente começa de forma silenciosa e que Bariri registra índices elevados desse tipo de ocorrência, reforçando a importância de romper o silêncio e buscar ajuda.
Isabela destacou que o município dispõe de uma rede de proteção formada pela Casa da Mulher, que oferece orientação, acolhimento, suporte e oficinas de fortalecimento, além do trabalho desenvolvido pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).
Outro avanço citado foi a elaboração, em conjunto com o Ministério Público, de um Plano Municipal Permanente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, que pretende integrar saúde, assistência social, segurança pública, educação e demais políticas públicas, garantindo um atendimento articulado e humanizado às vítimas. Ela também defendeu maior participação da população na formulação e fortalecimento dessas políticas públicas.





















