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Myrella Soares da Silva – “O que buscamos é a humanização através do respeito, é a oportunidade de sermos nivelados como qualquer pessoa pelo caráter, conduta, contribuição com a sociedade e não pelas nossas particularidades”

 

Primeira mulher trans a se eleger para um cargo eletivo em Bariri, a vereadora Myrella Soares da Silva, 39 anos, ressalta na entrevista desta semana sua luta para que todas as pessoas sejam iguais, independentemente das particularidades de cada um. Ela fala a respeito do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ (que será comemorado na segunda-feira, dia 28) e de seu trabalho na Câmara Municipal. Outro assunto abordado por Myrella é que deve haver um esforço conjunto para que as mulheres deixem de ser vítimas de todo tipo de violência.

 

Candeia – O 28 de junho é considerado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Para você, qual a importância dessa data?

 

Myrella – O dia 28 de junho é um marco histórico onde em 1969 um grupo de jovens LGBTQIA+ bravamente resistiu aos ataques policiais, exercendo ali o direito de coexistirem livremente naquela comunidade, ficando conhecida como a rebelião de Stonewall. Foi uma data marcante que daria início a diversos debates e movimentos em defesa dos direitos da diversidade. Para mim, o fato mais importante dessa data é justamente manter acesa essa luta que é constante, uma vez que ainda vivemos em uma sociedade hipócrita, preconceituosa, excludente que agride, fere e mata seus semelhantes. Sim, semelhantes, mesmo com a sociedade querendo inferiorizar a comunidade LGBTQIA+ ou qualquer pessoa que se apresente diferente do padrão pré-estabelecido, a semelhança é uma garantia legal, uma vez que somos TODOS IGUAIS perante a lei, porém, não existe a moralidade para essa lei, visto que no cotidiano ela não se efetiva, temos que ainda lutar muito para coexistir em um mundo ainda tão desigual. A sexualidade de cada um é única, intransferível, não contagiosa, algo muito íntimo dos indivíduos, que não depende da opinião, crença, cultura de terceiros. Nós sempre existimos, e existiremos apesar de qualquer resistência ou negação com relação a isso, e o que buscamos é a humanização através do respeito, é a oportunidade de sermos nivelados como qualquer pessoa pelo caráter, conduta, contribuição com a sociedade e não pelas nossas particularidades.

 

Candeia – Como analisa sua representatividade à frente de um dos poderes locais? Quais as pautas que você gostaria de avançar?

 

Myrella – Representatividade é algo que importa muito, é você poder espelhar-se em alguém, ter uma referência, isso completa sua existência. Um exemplo que sempre cito é o da apresentadora Maju que ao adotar seus belos cabelos crespos na frente do telejornal, despertou o amor próprio de tantas outras mulheres que hoje amam seus cabelos. Na minha autodescoberta, não existia essa representatividade, o acesso à informação era muito restrito e mulheres trans eram tidas apenas como pessoas promíscuas perante a sociedade, era um assunto tabu, pouco conhecido ou discutido, e mesmo não tendo uma representatividade positiva, construí meu próprio caminho a duras penas, mas com grande aprendizado e amadurecimento. Amigos e familiares me aconselharam a não divulgar a questão da minha transexualidade, por acharem que após a minha cirurgia de redesignação e retificação dos documentos isso tinha ficado no passado, mas não, essa é quem eu sou, faz parte de uma história muito bonita de coragem e honestidade comigo mesma e com meu corpo, da qual me orgulho muito e que poderia servir de inspiração para outras pessoas que sofrem com processos parecidos. Sou a única mulher, trans, negra, periférica, funcionária pública, e pretendo levar pautas relevantes para essas categorias, fazendo com que se sintam realmente representadas. Encaro com grande responsabilidade meu cargo de vereadora, pois carrego comigo a expectativa e os sonhos de muitas pessoas que por algum motivo se identificam com meu mandato, alguns políticos tem preço, outros tem valor, fui eleita para defender e representar o povo de Bariri tão somente. Minha postura dentro da Câmara é expor os anseios da população, fazer o correto para o coletivo, ser a voz feminina que junto com os nobres colegas vereadores leva até o Executivo as necessidades reais da população baririense, e fico muito satisfeita quando os munícipes me abordam dizendo que estão aprovando meu trabalho na Câmara, isso é representatividade.

 

Candeia – O que destaca no trabalho na Câmara?

 

Myrella – Meus requerimentos e indicações têm sempre um cunho propositivo, uma vez que buscam sanar deficiências que observo dentro da Administração Pública, cito o exemplo dos últimos requerimentos e indicações que versam sobre a demora das tratativas do Poupatempo, entrega dos kits merenda para as próprias crianças e também da não exigência de um maior responsável para a retirada do leite do Programa Viva Leite, o que, ao meu ver, expõe esses menores a situações de grande risco. Até então protocolei três projetos de lei, o primeiro que tratava do não desligamento do abastecimento de água no período da pandemia, não foi aceito pelo fato de o jurídico entender ser de responsabilidade do Executivo e não do Poder Legislativo. Meu segundo projeto trata da Semana da Não Violência que seria a oportunidade de os educadores discutirem com seus alunos leis federais que garantem a não discriminação, consequentemente a não violência de qualquer natureza, como por exemplo o racismo, o bullyng e a Lei Maria da Penha, está sob análise das comissões. O terceiro projeto entrou para leitura na última sessão, sobre a Proibição de Fogos de Artifício Ruidosos e Estampidos, em proteção às pessoas com TEA ( Transtorno do Espectro Autista), idosos, acamados e animais, encaminhado para as comissões. Estou estudando a possibilidade de normatização do fluxo de atendimento para pessoas que buscam acompanhamento médico e psicológico para possíveis disforias de gênero, que julgo ser de extrema necessidade, uma vez que é um processo longo, complexo e que não possui nenhuma regulamentação oficial, lembrando que cada caso é único e nem todas as pessoas que acreditam ser dessa ou daquela forma, necessariamente o são, justamente por isso existe um longo tempo de acompanhamento para que a pessoa se encontre sem interferências externas.

 

Candeia – Recentemente você participou de dois eventos sobre diversidade. Fale um pouco a respeito deles.

 

Myrella – Tive o prazer de participar como oradora no evento: Transfobia: Violência no dia a dia em todos os níveis, de Juazeiro do Norte (CE) onde trocamos experiências e um pouco de nossas vivências, a primeira convidada como oradora era a vereadora mais votada de Niteroi-RJ Benny Brioli que foi destaque no Fantástico por sofrer ameaça de morte e ter que se refugiar em outro país, e no momento do evento estava em audiência pública justamente por conta desse ocorrido, colocando em seu lugar uma assessora que a representou brilhantemente. O Brasil é o país que mais mata transexuais, o que é um contrassenso uma vez que é o país que mais consome pornografia trans do planeta, várias vereadoras trans foram hostilizadas, desrespeitadas, e ameaçadas, o que nos leva à pergunta: do que esse pessoal tem tanto medo? Seria a masculinidade assim tão frágil ao ponto de se incomodarem com uma mulher trans empoderada, fora das ruas, das esquinas, da noite onde a sociedade sempre a segregou? Participei também como palestrante do 4º Congresso Internacional dos Direitos da Diversidade da OAB – SP a convite da Dra. Aline Favero, vice-presidente da CAASP, na oportunidade ressaltei a importância de políticas públicas voltadas à comunidade T (transexuais e travestis), uma vez que o único ambulatório para acolhimento dessa população existe apenas em São Paulo, capital, sendo de extrema necessidade que o Governo do Estado mobilize atendimento para as pessoas do interior do estado, buscando a dignificação do ser humano. Foi uma experiência incrível, mais do que falar, ouvir os relatos de outras mulheres que estão lutando cada uma a seu modo em busca de um ideal em comum, foi mágico levar o nome de nossa cidade para milhares de pessoas, e espero ter contribuído de forma positiva na vida de alguém. Nessa mesma linha, as vereadoras trans eleitas de todo o país e suas assessorias organizaram uma frente parlamentar, para discutirmos nossas necessidades e demandas de cada região, apoiando-nos mutuamente e em comemoração ao mês do Orgulho da Diversidade gravamos um vídeo que será veiculado para todo o país, levando uma mensagem de esperança e resistência a todas as pessoas.

 

Candeia – Como Procuradora Especial da Mulher, que trabalho pretende realizar no município?

 

Myrella – Pretendo motivar a mulherada a redescobrir seu valor, assim que a pandemia passar, estou muito empolgada para poder me reunir com elas. Quero trazer palestras sobre seus direitos, sobre saúde, seu bem-estar físico, psicológico e beleza. Poderei utilizar o plenário da Câmara para fomentar debates importantes ligados às causas femininas. Organizar cursos profissionalizantes de geração de renda, planejamento familiar, enfim uma gama muito grande de atividades. Por hora, venho atendendo quando acionada na Casa da Mulher; de março até o presente momento, foram 21 atendimentos e posso dizer ainda existe muita mulher que apanha, que sofre assédio moral calada por diversos fatores, medo, falta de apoio, filhos entre outros. É um trabalho de formiguinha, pois muita coisa ainda é cultural, muitas mulheres ainda acreditam ser normal a agressão, que de alguma forma ela é justificável, e não NENHUMA violência pode ser justificada, sei que terei um grande desafio pela frente mas tenho muitas amigas empoderadas e outras que chegarão das mais diversas áreas, e tenho confiança que irão contribuir com essa causa.

 

Candeia – Em relação à Casa da Mulher Mariana Forti Bazza, como analisa o trabalho desenvolvimento atualmente e sua expectativa com o futuro da casa?

 

Myrella – A Casa da Mulher ainda me parece um tanto tímida, com o que diz respeito ao potencial que possui, está longe de ser o serviço ideal para acolher as mulheres em sua totalidade. Requeri junto à Diretorias de Saúde e Social quais as políticas públicas voltadas para as mulheres existem no município, justamente para entender quais serviços poderiam ser direcionados à Casa. Um ideal de Casa da Mulher seria um espaço de acolhimento, proteção, promoção, profissionalização, prevenção, entre outros. Até onde sei existe o atendimento psicológico e apoio jurídico voluntário para casos de violência contra a mulher. Sinceramente não sei quais as intenções da administração para o futuro da Casa, porém a Procuradoria deverá suspender suas atividades naquele local, assim que a Câmara Municipal organizar espaço próprio.

 

Candeia – Mulheres trans cansaram de ser silenciadas na política. Aparentemente você não tem enfrentado nenhum tipo de preconceito em sua atuação na Câmara. É um fato real? Onde a discriminação ainda existe?

 

Myrella – Até então eu não posso me queixar da postura dos meus nobres colegas na Câmara, o clima é bastante cordial e amigável. Sinto um perfil muito produtivo de todos os vereadores, cada um com seu modo de pensar e agir, mas prevalece o respeito, até porque sou a única dama no meio deles. Obviamente que me imponho de igual para igual desde o dia de nossa posse, as mulheres de forma geral sofrem com esse silenciamento que acredito ser cultural também, e muitos dos homens que o cometem nem tem essa real intenção, por isso é importante nos fazermos presentes. A mulher é necessária na política, pois têm uma visão mais apurada para diversos assuntos, adoraria dividir o plenário com outras mulheres só iria agregar ainda mais o debate. O preconceito está diretamente enraizado no desconhecimento, na ignorância de sempre esperar o pior das pessoas, no momento que começam nos enxergam enquanto seres humanos, nossas qualidades, os conceitos vão mudando. Obviamente que não tenho essa ilusão de que sou benquista ou aceita por toda a sociedade, mas minha missão é avançar criando pontes com as pedras que recebo e estendendo a mão a quem eu posso. Fui, sim, hostilizada, atacada, ofendida nas redes sociais no ano passado, período da campanha política covardemente por um perfil fake, e mesmo tendo feito o B.O. muito pouco pôde ser feito, por dificuldade de localizar o autor. Então, sim, estou exposta a ataques dessa natureza, porém, o jurídico que cuida da Frente Nacional Transpolítica está analisando o ocorrido e espero que justiça seja feita, já não estou mais sozinha.