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Fernando César Gregorio – “E o quão importante seria dar a devida importância, afinal a nossa própria história nos possibilita refletir sobre nossos valores, nossos projetos para o futuro”

 

Ontem, 9 de julho, foi feriado estadual por causa da Revolução de 1932. Para tratar do tema, o Candeia entrevista Fernando César Gregorio, um apaixonado pelo assunto. Há quase 20 anos ele publicou um especial no Jornal Candeia com o título “A Guerra Civil dos Paulistas – 1932”. Gregorio conta a respeito de fatos históricos relacionados aos confrontos e a participação direta de um baririense (Claudionor Barbieri) no campo de batalha. Segundo ele, apesar de ter seu nome numa das principais avenidas da cidade, o jovem não teve e não tem o devido reconhecimento, assim como outros heróis e fatos históricos. Gregório é graduado em Engenharia, Direito e Filosofia, auditor fiscal, delegado e chefe do Serviço de Inteligência Fiscal da Receita Federal do Brasil. Possui pós-graduação no Federal Law Enforcement Training Center (EUA). Também é professor, palestrante, articulista e autor de 13 livros. Recebeu a Medalha 9 de Julho da Sociedade dos Veteranos de 32 – MMDC. Atualmente é consultor tributário do escritório Gregorio Consultoria Corporativa.

 

Candeia – Em 2002, o Candeia publicou caderno especial com texto de sua autoria, intitulado “A Guerra Civil dos Paulistas – 1932”, fruto de ampla pesquisa. O senhor pode relatar sobre a escolha do tema, o trabalho de pesquisa, as fontes e como chegou ao texto final?

Gregorio – Bossuet nos diz que a história é o grande espelho da vida, instrui com a experiência e corrige com o tempo. Entre os animais o homem se distingue por sua consciência em aprender com o passado para projetar seu futuro. Quando retornei a Bariri, praticamente ninguém sabia me falar ao certo porque temos uma avenida denominada Claudionor Barbieri. Comecei minha pesquisa primeiramente tentando reunir dados, documentos. Depois tive apoio da tradicional família Barbieri, e continuei investigando em livros e artigos de jornais da época. Também entrevistei várias pessoas, cujos depoimentos constam do Caderno Especial publicado pelo Candeia. Através do prestimoso e fraternal Dr. Neliton Pereira, fizemos investigações na cidade de Silveiras pelo local de descanso derradeiro de nosso herói menino. Fico feliz por ter dado uma pequena contribuição para que possamos conhecer um pouco melhor a história de nosso Bariri. Hoje, 19 anos após aquele trabalho, vejo que muitas informações e dados que consegui compilar e registrar ali teriam se perdidos para sempre. Diferente de um povo bárbaro que não possui história, nem nobreza, temos nossa história e nossa nobreza como cidadãos.

 

Candeia – Que aspetos destaca neste trabalho? Quais as principais conclusões? Nestes anos houve algum tipo de revisão dos dados?

Gregorio – A cultura é constituída por heranças simbólicas que precisam estar presentes e vivas na mente das gerações, mas são dinâmicas. Questões como: Quem sou, de onde vim e para onde quero ir? – Passam pela memória coletiva, por sua história, por estruturas arquetípicas inconscientes. Assim como um indivíduo amnésico é diagnosticado com patologia psíquica grave, demência por exemplo, não seria muito disparatado adotar o mesmo diagnóstico a uma coletividade sem memória, que ignora sua história. Sabemos que Luiz XV foi guilhotinado na França, sabemos que o presidente americano John Kennedy foi morto com um tiro enquanto andava de carro; sabemos que Martin Luther King foi assassinado. Mas sabemos que um menino baririense de 17 anos levou um tiro no rosto defendendo os nossos direitos à liberdade, à cidadania, aos valores democráticos? Emília Viotti da Costa com pleno princípio de razão afirma que: Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado. Creio que um dos aspectos que se extrai do trabalho de 2002 é que carecemos conhecer melhor a nossa própria história. A ignorância sobre o passado poderia ser comparada como uma verdadeira patologia social, características dos povos sobrepujados cultural e economicamente, aqueles que experimentam o complexo de vira-lata. Na nossa história baririense, talvez esta seja uma fundamental lição deixada a nós e às gerações futuras pelo nosso herói menino, quando Claudionor Barbieri continua a nos apontar o dedo em riste e nos indagar: O que você está fazendo para melhorar a vida da nossa cidade e do nosso país?

 

Candeia – O levante armado dos paulistas combatia o autoritarismo do governo de Getúlio Vargas. Alguns historiadores pintam um quadro de “vitória após a derrota” ao analisar o legado o movimento. O senhor concorda com essa análise?

Gregorio – Como todos sabemos a história não é uma ciência exata, mas o que se pode extrair é que a revolta paulista foi mais um episódio da polarizada estrutura econômica-social do Brasil que, de certa forma, pouco foi alterada até nossos dias. Do lado revoltoso, as elites paulista e mineira, que dominavam há décadas o poder, escolhiam o presidente da república a dedo e segundo seus próprios interesses sem se importar com o resto da sociedade. A chamada República Velha, também conhecida como a famigerada política café-com-leite, era uma democracia de fachada. De outro lado, o mundo e o país se desenvolviam, industrializavam-se, havia êxodo rural para os centros urbanos, os cidadãos e cidadãs não tinham direitos, educação, saúde, o que culminou com a subida de Getúlio Vargas ao poder por meio de um golpe de1930, com a promessa não cumprida de abrir eleições e constituinte. Em síntese, as mesmas forças opostas que permanecem em nossa terra tupiniquim: o embate entre o individualismo das elites poderosas e o a ânsia da sociedade cristalizada num ditador de plantão, tema estudado pelas mais variadas áreas do saber, mas talvez ainda sem uma resposta concreta. As duas faces da mesma moeda, os opostos que se complementam. O Estado de São Paulo se revolta com a caudilhismo de Vargas pelo fato deste governar de forma discricionária por meio de decretos, sem respaldo de uma Constituição e de um Poder Legislativo. Vargas ainda descumpre as promessas de redemocratização do país, desdenha dos interesses paulistas e se instala no poder como dominador absoluto. São Paulo então pega em armas em 9 de julho de 1932, insuflado pela revolta popular após a morte de quatro jovens por tropas getulistas em praça pública. Na revolta armada, São Paulo é deixado à própria sorte depois de ser abandonado por Minas Gerais e Rio Grande do Sul que prometiam apoiar, mas no final entraram em combinação com o Governo Federal de Getúlio Vargas. Após quase três longos meses de intensos combates nos quatro cantos do Estado, o conflito foi encerrado em 2 de outubro de 1932 com a rendição do Exército Constitucionalista. Perdemos mais brasileiros nos campos de batalha do que em toda a Segunda Guerra. Tropas federais profissionais contra jovens inocentes, agricultores, operários sem treinamento, sem roupa, sem comida, sem armas e sem munição. Vitória ou derrota paulista? Não creio que esta resposta seja fácil. É certo que apesar de derrotado nas batalhas, algumas das principais reivindicações dos paulistas foram obtidas, como a nomeação de um interventor civil e paulista, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a promulgação de uma nova Constituição em 1934. No entanto, essa Constituição teve curta duração, pois em 1937 Vargas fechou o Congresso Nacional, cassou a Constituição vigente e outorgou uma nova Constituição, justificando tais medidas a um suposto extremismo de movimentos políticos da época. Assim, a partir de então, foi estabelecido o regime ditatorial conhecido como Estado Novo que perdurou até 1945, ano em que Vargas foi deposto por um grupo militar composto por generais, antigos aliados. Historiadores dizem que a Revolução de 32 foi o marco do nascimento da indústria paulista, cuja economia e sociedade passaria a influenciar o destino da nação. Se houve vitória dos paulistas, foi uma vitória de Pirro.

 

Candeia – Que relação o senhor faria do 9 de Julho com a situação atual do País, diante da escalada autoritária do atual governo federal?

Gregorio – Sem entrar no mérito político, você sabe por que razão os ditadores, por mais brutais que sejam, por mais que controlem o seu povo com mão de ferro, caem? Porque ninguém pode controlar a movimentação do Eu e os seus anseios pela liberdade, como nos diz Augusto Cury. O famoso sociólogo Gustave Le Bon afirma que governantes com pulsões fascistas não passam de uma ficção. Na verdade, o seu poder dissemina-se entre numerosos subditadores anónimos e irresponsáveis cuja tirania e corrupção não tardam a tornar-se insuportáveis. A história está repleta destas de aberrações e nos ensina a ficarmos atentos a estas possibilidades. Aqui nos interessa a história e veja como a ela nos faz refletir quando conhecemos melhor a nossa Guerra Civil Paulista de 1932. O herói baririense Claudionor Barbieri, pelo seu exemplo, nos educa: – meus queridos baririenses, todos somos responsáveis por nossa democracia, pela nossa liberdade de pensamento, pelo acolhimento dos diferentes, por uma convivência fraterna em sociedade, pelo nosso desenvolvimento como civilização.

 

Candeia – Claudionor Barbieri foi um herói baririense na Revolução Constitucionalista de 1932. Por favor, relate o que o senhor sabe sobre essa participação.

Gregorio – Em 1932 a tensão entre São Paulo e o governo do ditador Getúlio Vargas começa a esquentar. Em 25 de janeiro, uma segunda-feira, cem mil pessoas haviam lotado a praça da Sé da Capital Paulista para manifestar-se contra o governo federal. O fervor constitucionalista toma conta de todos os paulistas, sejam da capital ou do interior, principalmente dos jovens estudantes, os mais exaltados participantes. Em 25 de fevereiro de 1932, Claudionor se matricula no 2.º Escola Pratica de Contabilidade Moraes de Barros, da cidade de Piracicaba. Em agosto, Claudionor vem para Bariri visitar seus pais e pede autorização para se integrar nas tropas paulistas. O comerciante Carlos Barbieri e a Dona Honória Penachi Barbieri, vendo a pouca idade do filho de 17 anos e o perigo que aquilo representava, resolveram não autorizar que se alistasse. Dois dias após sua chegada, Claudionor foge da casa dos pais numa madrugada fria, sem se despedir de ninguém e imediatamente, no dia 9 de agosto, se incorpora sob o nº 87 na 1.ª Companhia do 2.º Batalhão dos Funcionários Públicos, junto ao Quartel no Palácio das Indústria de São Paulo. Seus pais somente ficaram sabendo do alistamento muito depois, quando Claudionor lhes enviou uma foto já fardado de Soldado Constitucionalista. Da capital, no dia 9 de setembro, foi transferido para a frente de batalha no Vale do Paraíba, cujas forças paulistas eram comandadas pelo Coronel Euclides Figueiredo e compostas por tropas regulares do Exército e batalhões de voluntários e da Força Pública – enfrentavam o Exército, a Marinha e outras polícias estaduais, todas bem treinadas e fortemente equipadas. Nossas tropas não tinham treinamento, armamento suficiente e sequer munição. Os maiores e mais ferozes combates travaram-se no túnel de Cruzeiro, na Serra da Mantiqueira. Ali, apesar da combatividade dos paulistas, teve início o recuo, já em agosto. Claudionor seguiu para as trincheiras de Lorena e Silveiras, no Vale do Paraíba, onde enfrentou sangrenta batalha contra as tropas do governo federal vindas do Rio de Janeiro. No setor de Silveiras, depois de muitas ações agressivas, mas indefinidas, um ataque em 3 de setembro causou perdas acentuadas e relativo recuo das tropas getulistas. O exército federal, então, montou rapidamente um contra-ataque com abundantes reforços, tendo sucessivas vitórias até que em 12 de setembro, data oficial da morte do herói Claudionor, os paulistas, esmagados, foram obrigados a recuar para Jataí. Claudionor lutava pelo terceiro dia nas trincheiras, sob comando do Tenente Eulálio, quando, em 12 de setembro, um tiro certeiro lhe atinge a fronte disparada pela Brigada Gaúcha ceifando a vida ainda jovem daquele que se fez herói entre nós. Seu corpo foi levado para Silveiras, no posto de Comando. A notícia do fatídico acontecimento chega através de um Memorando, de 23/09/1932, do Batalhão Coronel Baptista da Luz, que foi entregue pessoalmente pelo Tenente Campanhã, trazendo a tormentosa mensagem:

Claudionor Barbiere

Morto em combate na frente de Sylveiras

no dia 12-09-32 – Trincheira Eulálio.

Está enterrado no cemitério de Jatahy.

Eulálio Rosa Cruz

Rua Bresses, 347.ª

Telef 9-1093.

Em Silveiras, ainda existem túmulos coletivos com os restos mortais dos soldados que ali tombaram. Os pais de Claudionor envidaram todos os esforços para localizar e trazer de volta o corpo do filho amado, mas sem sucesso. Longe da família, dos amigos, dos conterrâneos, Claudionor foi sepultado na última trincheira, nas terras de Silveira.

Deixo com vocês um pequeno trecho do poema de Guilherme de Almeida:

 

Oração ante a última Trincheira

 

Agora, é o silêncio.

É o silêncio que faz a última chamada.

E é o silêncio que responde: “Presente!”

 

Esta é a trincheira que não se rendeu:

A que deu à terra seu suor,

A que deu à terra sua lágrima,

A que deu à terra o seu sangue!

Esta é a trincheira que não se rendeu:

A que é nossa bandeira gravada no chão pelo brando de nosso ideal,

Pelo negro de nosso luto,

Pelo vermelho de nosso coração!

A que atenta nos vigia,

A que, invicta, nos defende;

A que eterna, nos glorifica!

Esta é a trincheira que não se rendeu:

A que não transigiu,

A que não esqueceu,

A que não perdoou!

 

Candeia – Em sua opinião, autoridades e população em geral dão a devida importância à figura histórica de Claudionor Barbieri?

Gregorio – Todos sabemos que nós não damos a devida importância aos nossos heróis e aos fatos históricos que, aceitemos ou não, formaram nossa personalidade como pessoa e como sociedade. Miserável país que não tem herói. Miserável país aquele que precisa de heróis, disse Brecht. E não digo heróis no sentido romântico, mas como personagens, como símbolos que nos fazem pensar, que formam nosso caráter como ser humano, como coletividade e como nação. A não ser por constar como nome da Avenida Claudionor Barbieri em Bariri e por uma rua na Vila Guilhermina na capital, nenhum outro evento conheço nesse sentido. E o quão importante seria dar a devida importância, afinal a nossa própria história nos possibilita refletir sobre nossos valores, nossos projetos para o futuro, a relação com o outro e mais, qual é nossa identidade, quem somos nós mesmos como pessoas, quais são nossos valores essenciais. Os heróis são maiores na recordação que temos deles, são o melhor que observamos neles e o melhor que podemos ver refletido em nós próprios. A história de nossa terra é muito mais que um chato contando coisa do passado, muito mais do que papéis e livros velhos cheios de poeira. É ela quem constrói meu sentimento de identidade, dá sentido à vida, me ajuda a responder de onde vim e para onde quero ir, é ela que me resgata da ignorância do rebanho. Deixo-os com uma frase de um dos homens mais ricos do mundo, Warren Buffet: “Me diz quais são teus heróis e eu direi no que você vai se tornar na tua vida.”