Camila Slompo Ormo
Letícia Fanton Cantazini
“O abrigo se encontra extremamente lotado, com animais em todos os locais possíveis e até impossíveis de se imaginar”
A situação do abrigo de animais de Bariri está no limite. O alerta é feito pela cirurgiã-dentista Camila Slompo Ormo e pela fisioterapeuta Letícia Fanton Cantazini, ambas dirigentes da associação Focinho Carente. Hoje o local conta com aproximadamente 400 animais, entre cães e gatos. Na entrevista concedida ao Candeia, Camila e Letícia mencionam as medidas necessárias para reverter esse quadro. Tais medidas passam por ações do poder público, educação e também conscientização dos moradores. “A população precisa entender que não é porque existe o abrigo que todos os animais têm que ir para lá”, ressaltam as dirigentes.
Candeia – Qual a situação atual do abrigo de animais?
Camila e Letícia – O abrigo se encontra extremamente lotado, com animais em todos os locais possíveis e até impossíveis de se imaginar. Conseguimos fazer muitas melhorias na estrutura física do espaço, porém a cada espaço novo que conseguimos adequar, mais e mais é o número de animais para acomodar, então esse ciclo acaba não tendo fim.
Candeia – De que forma seria possível reduzir a quantidade de animais abrigados?
Camila e Letícia – A única maneira de se reduzir a quantidade de animais abrigados e abandonados na cidade inteira é através de um programa de castração permanente e conscientização da população. Vale ressaltar que a população precisa entender que não é porque existe o abrigo que todos os animais têm que ir para lá. Existem prioridades e também prezamos pelo bem-estar dos animais, pois todos sabem que animais aglomerados geram desconforto e estresse. Não temos mais onde colocar.
Candeia – Qual o custo mensal para a manutenção do abrigo? De onde são provenientes os recursos para esse trabalho?
Camila e Letícia – O custo mensal é imprevisível, depende muito do número de casos que são atendidos e das necessidades e emergências do mês. Os recursos são obtidos através do convênio com a prefeitura municipal que nos repassa o valor de 11 parcelas de R$ 6.916,67 e uma de R$ 9.916,63 (esse aumento é referente ao 13º dos funcionários e impostos referentes aos mesmos), valor que não é suficiente para cuidar dos quase 400 animais que estão no abrigo e atender a todos os pedidos que nos chegam diariamente. Então, completamos esse déficit através das doações mensais, rifas, eventos e outras colaborações. Mas nunca é suficiente, pois a demanda é muito grande. Vale ressaltar que hoje nossa principal dificuldade financeira vem dos casos de animais que atendemos que não são do abrigo. Diariamente são dezenas de denúncias e pedidos de ajuda para animais em situação de abandono, atropelados, maus tratos e doentes de famílias carentes que não têm condições de pagar um atendimento veterinário. Nossa dívida hoje nas clínicas veterinárias ultrapassa R$ 16.000,00 devido a esses casos e os pedidos de ajuda e denúncias que não param! Por estarmos nessa situação, pedimos a conscientização da população para que cada um faça sua parte e não só passe os problemas para o abrigo.
Candeia – Expliquem como o serviço de cuidados com os animais é feito diariamente.
Camila e Letícia – Atualmente temos dois funcionários no abrigo, pois devido ao grande volume de animais existe muito serviço lá diariamente. Além disso, temos um grupo de voluntários que ajudam diretamente na sede do abrigo “pondo a mão na massa” e também nas ações de captação e arrecadação de recursos e doações. Todos os voluntários trabalham e/ou estudam, então cada um ajuda da forma que consegue. Aos finais de semana há um revezamento entre os voluntários, pois existe a necessidade de alimentação e limpeza no mínimo duas vezes ao dia, além das medicações necessárias aos animais que estão em tratamento. Sem contar os casos que surgem diariamente na cidade e nós voluntários nos disponibilizamos para averiguar e atender.
Candeia – Qual sua perspectiva em relação à castração de animais em Bariri?
Camila e Letícia – Há anos estamos lutando para conseguir a castração na cidade. Já fizemos cadastro de famílias carentes que necessitam da mesma para seus animais, levamos esses dados para deputados. Por várias vezes juntamos documentos para esse fim, mas a verba tão esperada para castração ainda não chegou. Também em parceria com a faculdade Unesp de Botucatu conseguimos castração a baixo custo e já levamos uma média de mais de 200 animais para serem castrados, sendo que a prefeitura disponibilizou o transporte. Estamos aguardando, assim como toda população, um programa eficiente de castração gratuita na cidade.
Candeia – Que medidas poderiam ser tomadas para impedir o abandono de mais animais na cidade?
Camila e Letícia – Precisamos do apoio do poder público para que haja uma campanha de conscientização sobre posse responsável, principalmente nas escolas. Por várias vezes já participamos de atividades relacionadas a isso. Mas sem dúvida, uma das soluções é a castração, pois uma fêmea não castrada pode procriar muitos filhotes ao ano e com isso o número de abandono aumenta. Além disso, como já foi falado em outras oportunidades, é importante fazer a microchipagem dos animais, pois assim seria possível um maior controle dos mesmos resultando na responsabilização dos donos por tudo que aconteça com o animal. É necessário também que haja a punição para quem cometer o abandono. Outra medida importante com certeza seria a existência de uma clínica veterinária gratuita destinada ao atendimento dos animais da população de baixa renda. Acreditamos que dessa forma conseguiríamos “fechar o cerco” contra o abandono em nossa cidade. Resumiríamos em quatro palavras: conscientização, castração, microchipagem e punição. Com certeza se todas elas fossem uma realidade em nossa cidade, não estaríamos vendo o caos de maus tratos e abandono que estamos presenciando diariamente.
Candeia – Em termos de política de atendimento a esses animais, como definem o papel do poder público?
Camila e Letícia – A responsabilidade de todos os municípios seria ter programas de castração, associados à microchipagem, esse seria o começo para se ter um controle de animais desprovidos de cuidados e em situações de abandono, pois isso acarreta um problema de saúde pública, como, por exemplo, o surgimento de uma zoonose.
Candeia – Desde dezembro do ano passado Bariri conta com lei que estabelece sanções e penalidades administrativas para aqueles que praticarem maus-tratos aos animais? Qual o efeito prático dessa legislação? Como fazer com que a lei surta efeitos?
Camila e Letícia – A aprovação e existência dessa lei foi uma grande conquista. Foi formada uma comissão fiscalizadora para averiguar e julgar os casos. Ressaltamos que a lei é municipal e que para que se torne totalmente efetiva, ainda se fazem necessárias algumas adequações. A comissão encaminhou um ofício para prefeitura, solicitando que se faça um convênio com uma clínica veterinária para atendimento imediato dos animais em situação de maus-tratos, pois os gastos até então estão indo todos para o Focinho Carente. Estamos aguardando.
Candeia – A entidade foi declarada recentemente como de utilidade pública. Em que isso poderia beneficiá-los?
Camila e Letícia – O título de utilidade pública foi uma grande conquista, conseguimos após muito esforço, o que para nós foi uma grande vitória. Foi decretado em 21 de dezembro de 2018 e, com isso, agora podemos solicitar recursos diretamente com deputados. Assim, até o momento já encaminhamos dois ofícios e estamos em contato direto com mais um deputado. Sabemos que é um processo demorado e aguardamos que tenham resultados concretos. Vamos continuar lutando para que nossos pedidos se efetivem e venham amenizar todas as dificuldades que enfrentamos.
Candeia – Gostariam de prestar alguma informação adicional?
Camila e Letícia – Sim. A cidade está com um surto de cinomose. Estamos atendendo e socorrendo muitos animais com essa doença terrível! Todos que tem cães precisam vacinar os mesmos. Lembrando que as vacinas devem ser feitas em clínicas veterinárias!
Box: Ativistas socorrem cães em Bariri
Ativistas da causa animal ligadas ao Focinho Carente socorreram três cachorros com sinais de maus-tratos e mais de 100 carrapatos em Bariri. Um dos animais não sobreviveu, pois estava bastante debilitado.
Eles foram retirados de uma residência no Jardim Santa Rosa, no dia 31 de maio, após denúncia e levados para uma clínica.
Segundo a presidente da associação Focinho Carente, Letícia Fanton Cantazini, que participou da ação, todos os animais apresentavam sinais de maus-tratos.
“Em cada um dos cachorros, tinham mais de 100 carrapatos. O veterinário deu uma injeção com medicação, porque não tinha condições de retirar manualmente, eram muitos. Também estavam com sinais de desnutrição e muita sede”, conta.
Ela encontrou outros dois filhotes mortos no quintal e que entrou na residência com a ajuda da Polícia Militar. Os donos dos animais negaram que os bichos de estimação sofriam maus-tratos. No local, não foi encontrado bebedouro de água, nem vasilha com comida.
As duas cadelas receberam atendimento veterinário e foram levadas para um espaço onde funciona a sede da associação.
“Como fizemos o transporte no carro, depois tinha carrapato até no teto do veículo, nunca tinha visto tantos assim. O pior é que todo dia estamos recebendo denúncia de maus-tratos, aumentou muito o número de casos”, comenta.
Fonte: G1

























